LI, VI, OUVI, ESCREVI

O LOBO J-AX

Na quarta-feira, 9 de abril, o jornal La Repubblica publicou entrevista com o rapper italiano J-Ax. Ele representa a segunda parte do fenômeno protagonizado pela freira siciliana, Cristina Scuccia que cantou no reality The Voice e causou tanto furor nas redes sociais, que apareceu em jornais do mundo inteiro. Ela o escolheu para ser seu técnico e ele falou que está “protegendo a irmã” além de cogitar que poderá fazer parte de um projeto musical com a religiosa ursulina. Ontem, a TV estatal na qual o programa é apresentado encerrou a fase chamada de blind auditions, isto é, as cinco semanas em que os quatro técnicos devem escolher entre os candidatos que cantam somente ouvindo, sem vê-los no palco. Um dos mais animados o quarteto técnico, o roqueiro Piero Pelu, disse no final do episódio de ontem que essa foi a invenção mais bastardata (sacana) da TV nos últimos tempos. A entrevista de J-Ax também está repleta de expressões da linguagem irreverente do universo da música pesada.

J-Ax, que é o personagem do momento a ponto de ponto de ir parar nas cobiçadíssimo páginas do New York Times, anda pelas ruas de Milão, onde mora e onde programa da RAI 2 é gravado, numa Harley Davidson, tem 41 anos e o corpo todo coberto de tatuagens. No pescoço, está a mais famosa que é um símbolo da morte com a frase: “Eu vou triunfar”. Silvia Fumarola, a repórter que o entrevistou diz que ele é sensível, irônico consigo mesmo, curioso, pensa com velocidade, tem olhos inteligentes, ainda que se autodefina como um “loser”, isto é, um perdedor.  Seu nome fora da arte é Alessandro Aleotti e por causa de sua música rebelde, é amado por adolescentes e jovens italianos. Ir. Cristina disse, no momento em que cantou um sucesso da Alicia Keyes no programa, que o escolhia porque ele foi o primeiro que virou a poltrona para vê-la, mas depois considerou que se alguém quer falar à juventude, não poderia ter feito melhor. O técnico, no entanto, disse na entrevista do La Reppublica que tinha certeza que a irmãzinha iria escolher Raffaela Carrá, uma espécie de Hebe Camargo da Itália.

Ele falou que faz parte da legião mundial dos fãs dos Simpsons e que junto com seus amigos gosta muito do humor negro. A repórter rebateu que dizendo que apesar da fama de durão, ele se comoveu como se fosse uma romântica senhora inglesa, considerando que o cantor foi às lágrimas várias vezes no The Voice. J-Ax respondeu: “Se você assistir  Goonies (filme de 1985 sobre um grupo de crianças que sai em buscam de um tesouro no meio de piratas, ndt) comigo, vai ver que choro como uma criança os últimos quinze minutos. Aquele é um filme que deve ser intelectualizado, e não o Nymphomaniac (sucesso cinematográfico atual do diretor Lars von Trier que que mostra intimidades sexuais). Com a Ir. Cristina, eu me comovi porque vi em uma moça de 25 anos, um pequeno pássaro que desafiava a sociedade. Eu pensei: esta noite, o mundo está mudando um pouco”.  O rapper disse ainda que já “contratou” um amigo, também tatuado, que permanece perto do convento da freirinha para impedir que os paparazzi perturbem sua vida de oração.

Uma advertência para quem espera mais do que um fenômeno musical no contato dele com a religiosa que o escolheu reality da holandesa Endemol franqueado em muitos países, inclusive no Brasil. J-Ax reiterou suas posições sobre temas muito caros ao fórum publico de ideias católicas dizendo: “não aceito aqueles que colocam em discussão leis como aquela sobre o aborto. As mulheres combatem lutas duríssimas. Considero ofensivo o debate sobre homossexualidade. Ninguém pode estabelecer quem nós devemos beijar”.  E jogou lenha na fogueira de sua imagem de bad boy, declarando claramente que não gosta do mais celebrado personagem político da Itália dos últimos meses, o primeiro ministro Mateo Renzi. Ele prefere política internancional e diz que por aqui não há mudanças verdadeiras, é como o festival de Samremo que troca o diretor, mas tem sempre muitas flores e os diretores da TV estatal que o patrocina estão sempre na primeira fila do teatro Ariston. No The Voice, em quase em todas as suas intervenções, J-Ax diz aos participantes: “quebra tudo!”. No final da entrevista, não podia ser diferente, e ao tratar de política disse de um modo que faz lembrar seus braços levantados no palco: “Eu sou um homem de esquerda, mas em uma coisa a esquerda perdeu: os “tamarri” (termo coloquial italiano para se referir a uma pessoa bruta, que é rude, que é socialmente marginalizada por protestar, ndt) perderam porque não nos dizem nada, foram esnobes. A esquerda sem o homem da rua é como um filme pornô sem libido”.

Foto: La Repubblica

Rafael Vieira, 10.4.2014