LI, VI, OUVI, ESCREVI

OBAMA VISITA O COLISEU

O ANFITEATRO MAIS CONHECIDO DO MUNDO

Coliseu: Obama, restauro e grande mercado ilegal

Moro a uma distância que se percorre em menos de cinco minutos do mais famoso monumento de Roma, o anfiteatro Flavio, mais conhecido como Coliseu. É inacreditável, mas esse imenso e altíssimo estádio de quase 2 mil anos de existência e que abrigava, em seus tempos áureos, mais de 70 mil espectadores foi construído por escravos em apenas 8 anos. Conta-se que tudo começou no ano 72 e foi inaugurado com 100 dias de festa, no ano 80. Barack Obama, que o visitou há duas semanas, fez uma comparação que ganhou as manchetes dos jornais da Itália quando o considerou “maior” do que um campo de beisebol. Uma equipe de reportagem de um dos canais do grupo de ex primeiro ministro Sivio Berlusconi, o Canale 5, apresentou um especial na noite deste sábado, 5 de abril, destacando o efeito que a visita do presidente dos Estados Unidos provocou em relação a duas realidades que cercam o Coliseu e que são testemunhadas também por quem vive nas suas vizinhanças: o restauro em curso e o impertinente comércio de ambulantes ilegais que assediam os visitantes.

Os repórteres do TG5 Speciale usaram drones para fazer belas imagens panorâmicas e resumiram a história bimilenar do anfiteatro que, inclusive, foi cenário de muitas cenas da melhor produção cinematográfica estrangeira a receber o Oscar deste ano, o filme italiano dirigido por Paulo Sorrentino e que, ironicamente, tem o título de La Grande Belezza. Apesar da impressão que causa olhar para as ruínas atuais, beleza não é exatamente o que se pode contemplar nas visitas de hoje em dia. Os 20 séculos que nos separam da construção têm de tudo: desde o original lugar para espetáculos dos césares, passando por moradia de nobres e pela fase de completo domínio da Igreja até chegar ao abandono total e ao que se pode considerar recente, dada a unificação da Itália de menos de dois séculos, quando foi retomada o monumento por parte do estado que o mantém com a exploração financeira da visitação pública que chega a milhões de turistas todos os anos e com parcerias feitas com empresas privadas.

O programa mostrou detalhes do grande restauro em curso que vai custar mais de 25 milhões de euros, durar 36 meses que teve início em dezembro do ano passado e que só foi possível graças à colaboração da empresa Tod’s, do ramo de calçados, de propriedade de Diego Della Valle. Durante quase 20 minutos, as câmeras mostraram o delicado processo de lavagem do mármore travertino que precisa ser feita durante horas com posteriores trabalhos de reparo que só podem ser executados manualmente pelos restauradores. Foram entrevistados os responsáveis técnicos,  a diretora geral do Coliseu, Rossella Rea e a diretora técnica, Barbara Nazzaro, aquela senhora que foi vista em telejornais do mundo inteiro servindo de guia para Obama. Ela disse que ele gostou do passeio e ficou maravilhado com a vista que se tem dos chamados fori imperiali das janelas que ficam no anel mais alto do Coliseu onde os turistas comuns não podem subir.

As exigências de segurança do presidente americano que o faz caminhar quase dentro de uma bolha invisível levaram as autoridades de Roma a isolar a área do Coliseu bem antes de sua visita. Desse modo, quem mora por aqui pode encontrar o monumento como nunca se viu antes: com os espaços laterais completamente livres da multidão de ambulantes e dos homens que se vestem de centuriões para assediar, vender e cobrar por fotos tiradas. O programa do Canale 5 mostrou que toda essa gente age ilegalmente e aborrece os turistas. Com entrevistas feitas com vários italianos quiseram comprovar o quanto essa situação incomoda aqueles que querem uma Roma diferente. Uma das entrevistadas disse que para Obama, se viu o que devia ser sempre uma cidade limpa e organizada, mas depois que ele foi embora, claro, tudo ficou do modo que se pode considerar normal: voltaram as dezenas de rapazes do Bangladesh para vender óculos escuros, pulseiras, souvenirs e água. Desempregados vindos da Índia que estão sempre prontos a vender guarda-chuvas. Ciganos que, em parte, aproveitam para pegar “emprestado” alguma carteiras nos bolsos dos mais desavisados ou encantados com o monumento e muitos cidadãos da cidade que estão em completo abandono e na pobreza que se travestem de comandantes de legiões romanas para tentar conseguir algum trocado posando para fotografias. O programa mostrou a correria no momento que aparecem os carabinieri, mas que logo tudo se acalma quando os policiais já não ligam ou deixam as imediações do Coliseu sem nenhum tipo de vigilância por parte da força da ordem.

Foto: TG5 Speciale, Canale 5

Rafael Vieira, 5.4.2014