LI, VI, OUVI, ESCREVI

ONDE OS BUDISTAS SÃO VIOLENTOS

Reportagem bem feita na qual é apresentada uma situacão assustadora: a filosofia pacifica articulada com os princípios da não-violência, da tolerância e da compaixão está servindo de base para promocão do terror em nome de certo nacionalismo nos confins da Asia. O texto – ainda nao disponibilizado pela revista na internet – traz uma fotografia do momento atual na antiga Birmania. A traducão foi feita a partir da revista impressa. Compensa ler. 

Texto e fotos de Giovanni Porzio

Il Venerdi, La Reppublica, 14.02.2014

Em Myanmar (mas também na Tailândia e no Sri Lanka) nasceu um fundamentalismo étnico-religioso que tem por protagonistas os seguidores de uma doutrina pacifista por excelência. Vamos fazer uma viagem entre os monges armados que são populistas perigosos. Tudo em nome do Iluminado.

Mandalay. O cortejo passa tranquilamente debaixo das sombras das arvores de Tek, na planície onde a mítica Burma Road se estende depois das curvas das montanhas. Nas cabeças, os monges descalços com túnicas na cor de açafrão e os noviços com os símbolos da mendicância, depois as monjas com as cabeças raspadas vestem-se de rosa, os músicos, os estandartes com a suástica budista, os carros alegóricos puxados por bois e a longa fila de fiéis vestidos para festa: os homens com longyi e camisa branca, as mulheres com flores no cabelo e os rostos pulverizados por um pó de madeira perfumado de Tamaka. Todos se dirigem a um lugar nas vizinhanças de Mandalay, a antiga capital da Birmânia, para celebrar uma festa religiosa.

É uma imagem de cartão postal que coincide com o estereótipo do budismo em moda no Ocidente: uma filosofia pacifica e meditativa articulada com os princípios da não-violência, da tolerância e da compaixão para com todos os seres viventes que há no suave e sensível Dalai Lama a sua mais alta figura representativa. Mas quando o cortejo se aproxima da cidade, as lojas abaixam as portas, as ruas ficam vazias e a Polícia antimotim supervisiona cruzamentos. Muitas vezes, nos últimos meses, reuniões de monges resultaram em explosões com ferocidades sem precedentes contra a minoria islâmica, alimentando um conflito que coloca em risco de comprometer o turbulento caminho do País rumo a democracia. Em um ano, mais de 250 muçulmanos foram mortos e 150 mil tiveram que deixar suas casas para evitar a fúria dos extremistas.

Os desencontros começaram em junho de 2012 no estado de Rakhine: grupos de fanáticos armados de facões atacaram os subúrbios da comunidade muçulmana Rohingya massacrando 180 pessoas e provocando o êxodo de centenas de deslocados. Mesmo que estejam em Rohingya a mais de mil anos, onde é negada a cidadania, são considerados pelos budistas como intrusos que ocupam ilegalmente a terra birmana. Hoje em Sittwe, capital de Rohingya, a Policia étnico-religiosa é um fato consumado: os muçulmanos expulsos da cidadezinha portuária estão refugiados em esquálidos campos de refugiados circundados pelo Exército e onde as organizações humanitárias têm muita dificuldade de chegar. Muitos morrem quando tentam sair chegar ao Bangladesh ou a Malasia a bordo de velhos barcos a vapor. Em novembro, em um naufrágio, 70 morreram afogados.

A partir de Rakhine, a velha cruzada chauvinista, alimentada por preconceitos e antigos rancores, se espalhou por todo o País. Em março de 2013, entraram em Meikila, no norte de Yangon. Uma discussão na oficina de um ourives tornou-se uma briga na qual um monge perdeu a vida. A represália atingiu a comunidade islâmica como uma tsunami: 40 vitimas, bairros inteiros destruídos, mesquitas incendiadas, vinte alunos de uma escola do Alcorão foram assassinados e jogados no fogo. Em agosto, centenas de casas muçulmanas de Sagaing foram reduzida a cinzas. E no ultimo dia 13 de janeiro, em um desencontro com incêndios sem balanços muito precisos, ao menos oito de Rohingya foram mortos na fronteira com Bangladesh.

La fobia anti-islâmica é uma herança da época colonial e pré-colonial. Os muçulmanos, vindos da Índia depois que as tropas britânicas ocuparam os melhores lugares na administração e, mesmo representando somente 5% dos 60 milhões de birmanos, são hoje – como os chineses – o segmento social mais ativo no comércio e nas finanças. O budismo, ainda antes da chegada dos ingleses, era parte da identidade nacional birmana: os mosteiros prosperavam na sombra da monarquia. Os soberanos, que recebiam dos monges a investidura moral e a legitimidade popular,  faziam guerra – como os cruzados que empunhavam a Bíblia – em nome de Buda. A ligação entre budismo e nacionalismo militante se consolidou nos anos de luta pela independência. E o prestigio dos monges se reforçou quando, em 2007, saíram para as ruas e fizeram a revolução cor de açafrão contra a junta militar de Yangon.

Ao mesmo tempo, porém, entre os 500 mil monges de Myanmar se fermentou um movimento racista e chauvinista que prega uma guerra santa contra os muçulmanos e a supremacia étnica e cultural dos bamar, os birmanos. A marca deles é 969, as cifras que simbolizam os atributos de Buda, os seus princípios do ensinamento, o Dharma e as 9 preces do Sangha, a ordem monástica. O chefe espiritual deles é um monge de 46 anos de idade de voz persuasiva que se autodefine o “Bin Laden Birmano”: Ashin (Venerável) Wiraghu, abade do mosteiro de Masoeyein. Em Mandalay, o complexo monástico surge em um lugar simbólico, perto do imenso quadrilátero que acolhe os últimos soberanos brimanos, o rei Thebaw e a rainha Sopalayat, que foram para o exilio obrigados pelos ingleses, em janeiro de 1886, o Palácio dos Espelhos descrito por Amitav Ghosh no livro homônimo.

Os mosteiros são centros de oraçao, meditação e recolhimento. Mas o seminário de Masooeyein, onde vivem e estudam, sob a liderança de Wirathu, 2.500 monges, parece mais um centro de propaganda politica. Nas paredes, fotos que documentam os horrores do conflito: monges assassinados, cadáveres dos muculmanos queimados e mutilados, mulheres violentadas. Os ativistas do 969 distribuem adesivos com a logo do movimento para serem colados nos para-brisas dos taxis e nas vitrinas das lojas. Jovens noviços inclinados sobre computadores preparam DVDs com os inflamados sermões do líder e espalham pelas redes sociais com slogans de guerra: “somos a resposta a invasão muçulmana”; “O Islam esta conquistando o mundo”.

O virulento mantra de ódio de Masoeyein ressoa em muitos lugares de Myanmar despertando os sentimentos guardados em um Pais artificialmente dividido pelo colonialismo onde convivem 135 grupos étnicos e mais de dez exércitos regionais e de guerrilhas separatistas. A mensagem xenófoba de Wirathu e dos seus acólitos encontra acolhimento em uma população que, hibernada por quase meio século em uma ditadura militar, se abre as oportunidades, mas também as tensões do mercado: explosão dos preços, urbanização, competição.

Wirathu, saído da prisão em 2010 com a anistia depois de 7 anos de reclusão por “incitação ao ódio religioso”, garante que a defesa da raça birmana é mais importante do que a democracia. Obcecado pela alta taxa de natalidade dos muçulmanos, ele esta convencido da existência de um complô para transformar Myanmar em um estado islâmico: “se não nos defendermos”, proclama com voz suave no Youtube “terminaremos como o Afeganistão. Os muçulmanos são pessoas mas: estupram nossas mulheres, bebem a nossa agua, roubam a nossa terra”. A solução, segundo o monge de Masoeyein, é o reforço do atual regime de apartheid em relação as minorias e a aprovação de uma lei que proíba o matrimonio entre pessoas de credos diferentes.

Não faltam as vozes que se levantam para estigmatizar a propaganda fundamentalista do movimento 969. “Não é este o ensinamento de Buda”, diz o Venerável Arriya Wutha Bewuntha, abade do mosteiro Myawaddy Sayadaw de Mandalay. “Não é este o caminho da paz e da reconciliação”. O governo, todavia, não nunca tomou distancia de modo claro dos ensinamentos de Wirathu, alimentando, desse modo, as suspeitas de conivência entre o monge e setores do establishment militar propenso a tirar proveito dos conflitos étnicos e religiosos para se manter no poder.

Quando Ashin Wirathu, em junho passado, foi parar na capa da “Time” com o titulo de “O rosto do terror budista”, suscitando indignação dos monges, a revista foi banida e o presidente Thein Sein, pessoalmente, se manifestou definindo Wirathu como um “filho de Gautama Buda”. O Exército , onipresente e de fácil reação violenta, não se distinguiu pela solicitude em impedir o massacre dos muçulmanos. Até mesmo a indiscutível líder da oposição, o Premio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, foi contundente em condenar a violência religiosa.

“Aproximam-se as eleições de 2015”, explica o líder do Partido pela democracia e pelos Direitos Humanos, Kyaw Min, “e hoje, na Birmânia, o nacionalismo extremista é uma poderosa carta no jogo”. Mas é uma carta perigosa, não somente para a frágil democracia birmana. No Sri Lanka a minoria muçulmana está no alvo de uma organização chamada Bodu Bala Sena (Força Budista) que prega a intolerância. No sul islâmico da Tailândia, onde o conflito já fez 6 mil vitimas, os monges estão armados e os mosteiros se tornaram base para o Exercito. Enquanto que, na Indonésia, o Sheik Abu Bakar Basyir, ligado a Al Qaeda e preso por terrorismo, chama os muçulmanos birmanos para uma guerra contra os budistas.

O fundamentalismo religioso, que desde o 11 de setembro tem marcado a historia do Ocidente e do mundo árabe, já contagiou os países emergentes do Sudoeste asiático.

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Rafael Vieira, 21.02.2014