LI, VI, OUVI, ESCREVI

P. ROGÉRIO GOMES, CSsR: PRIMEIRO IMPACTO DA EVANGELII GAUDIM

Jovem professor da Accademia Alfonsiana, aqui de Roma, padre Rogério Gomes, fez excelente artigo com uma primeira apreciação da Exortação Apostólica “Evangelli Gaudium” que merece leitura cuidadosa. E, claro, posteriormente, como aconselha o autor, seria bom meditar a palavra do Papa Francisco. Leia:

Breve resumo da exortação apostólica Evangelii Gaudium

Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R

Professor da Accademia Alfonsiana, Roma.

O Papa Francisco publicou a sua primeira exortação apostólica, a Evangelii Gaudium, sobre o anúncio do evangelho no mundo atual. Um texto que, além da sua simplicidade, beleza e densidade, reassume em um ‘corpus’ seus discursos, no que diz respeito à reforma da Igreja e insere outras questões pertinentes no contexto contemporâneo. Ele se refere amplamente à alegria e, sobretudo, a alegria que vem do encontro com o Senhor. Resgata a dimensão da participação, algo que o Vaticano II já havia assinalado e não crê em uma Igreja de decretos. Neste texto, ele oferece conteúdo programático à Igreja que deve sair de si mesmo e encontrar as pessoas nas ‘periferias existenciais e do mundo’ com seus desafios: alegrias e tristezas. Ao meu ver, trata-se de um texto que não deve ser lido, mas meditado, e é um convite à Igreja para sair de suas próprias estruturas arcaicas, seguras, estéreis que sufocam o evangelho. Convida a todos a perderem o medo de evangelizar e superar uma lógica de um perfeccionismo inútil que impera nas instituições eclesiais e nos cristãos e enfraquece a ação evangelizadora, porque tem medo de ir ao encontro do essencial do evangelho.

Francisco afirma que ‘não é tarefa do Papa oferecer uma análise detalhada e completa acerca da realidade contemporânea” e continua: “mas exorto todas as comunidades a terem uma sempre ‘vigilante capacidade de estudar os sinais dos tempos’” (EG 51).

Descrevendo a realidade contemporânea o Papa escreve que os cristãos devem dizer não a uma economia que mata, que descarta as pessoas pela ‘globalização de indiferença’ do anestesiamento das consciências, do ‘feticismo do dinheiro’, do consumo, da rejeição da ética e de Deus. A economia deve estar a serviço do ser humano. Apresenta os desafios de uma cultura relativista e midiática, da inversão de valores, a secularização, a transformações no âmbito familiar, os problemas da inculturação da fé e sua transmissão, as transformações no mundo urbano e suas problemáticas, bem como no âmbito rural.

Trata-se de um mundo que exclui as pessoas, mas que oferece a possibilidade de conviver com a pluralidade, onde cada ser humano possa ser respeitado nos seus espaços, não em um individualismo estéril, mas na sua individualidade e é capaz de ir ao encontro dos outros. A evangelização acontece por meio de encontro com outros e a sua razão em Jesus Cristo. Chama a atenção para as tentações que afetam os evangelizadores de se fecharem às próprias convicções, projetos e velhas estruturas. Recorda o direito dos fieis de serem bem atendido pelos seus pastores e uma Igreja aberta tanto institucional, física e humanamente à moção do Espírito que sopra onde quer e que testemunha o Evangelho em meio aos povos e culturas e seus desafios.

É muito belo quando Francisco fala da importância de uma homilia, breve, bem preparada, que evidencie o mistério pascal de Cristo. Ele usa a metáfora de uma ‘mãe que conversa com o seu filho’ com ‘palavras que fazem arder o coração’ e que devem ser preparadas com meditação, oração e estudo, coerência e testemunho e que toque a realidade do povo de Deus, com linguagem simples e profunda.

Ele insiste em um processo de evangelização que resgate a dimensão do kerygmática e mistagógica e que acompanhe pacientemente com novas linguagens e símbolos, fundamentada sobre a Palavra de Deus e que toque as questões sociais, promovendo integralmente o ser humano. O evangelho deve provocar os cristãos a agirem no mundo, incluírem os pobres, os fragilizados e os indefesos das violações contra a vida humana e pede para que se lute pela paz social e se construa um diálogo interdisciplinar entre fé, razão e ciência e ecumênico. Por fim, evangelizar com o Espírito que se abra sem ‘medo à ação do Espírito’ (EG 259) per um renovado impulso missionário e sob a proteção de Maria, a mãe da evangelização.

Para quem ouve as homilias de Francisco, não terá problemas ao ler o texto. É direto, não tem interpolações, visa tocar o coração do homem e mulher de hoje, mesmo se o texto seja longo, 288 parágrafos. Resgata as grandes linhas do Concílio Vaticano II e os desafios contemporâneos e convida a Igreja ser samaritana a olhar os caídos pelas estradas do nosso cotidiano na sociedade. Muitas dessas questões deverão ser retomadas no Sínodo no ano que vem sobre a família! Quanto às fontes do documento, não é um documento autorreferencial. Não se autocita na exortação. Resgata as Conferências Episcopais dos diversos continentes, resgatando o aspecto da participação e da subsidiariedade e de uma Igreja semper reformanda. Que possa vir ares novos para dentro da Igreja que permitam a reflexão teológica crítica e a abertura ao diálogo com o mundo para que juntos possam chegar ao bem desejado por Deus, a felicidade humana!

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Rafael Vieira, 27.11.2013