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PAVEL DUROV: FUNDADOR DA MAIOR REDE SOCIAL DA RÚSSIA

A última edição italiana da revista “Internazionale” reproduz matéria da norte-americana “Businessweek” sobre a maior rede social russa, a VKontakte. Seu fundador, Pavel Durov, tem 28 anos e comanda uma empresa que vale bilhões de dólares. Leia a matéria. É interessantíssima.

Sob controle

Yoshua Yaffa, bloomberg Businessweek, Estados Unidos

Vkontakte, a principal rede social russa, é mais popular que o Facebook. O seu fundador acabou por se tornar alvo do Kremilin, depois que o governo entendeu a importância da web e resolveu limitar sua liberdade.

O edifício Singer, número 28, na Prospectiva Nevskij, é, provavelmente, a propriedade mais exclusiva de San Petersburgo. O prédio de seis andares, uma jóia de bronze e vidro em estilo art nouveau construído no início do século passado e localizado ao lado do canal Griboiedov, uma visão rápida sobre a água conduz às cúpulas em forma de cebola da Igreja do Salvador do Sangue Derramado. O edifício foi construído em 1904 para ser a sede da empresa de máquinas de costura Singer na Rússia. Depois de 1917, os bolcheviques fizeram dele uma editora estatal com a maior livraria da cidade, que existe ainda hoje. Desde 2010, o quinto e o sexto andar estão ocupados pela VKontakte, a rede social mais popular da Rússia. Vkontakt, que significa, “em contato”, tem mais de 210 milhões de usuários e é o terceiro site mais visitado do país. O sede é, relativamente pequena – no edifício Singer trabalham pouco mais de 20 programadores – considerando  toda a parafernália do seu startup de formato familiar: sofás com cores vivas, água tônica e chocolate grátis e um grupo composto, sobretudo, por jovens programadores homens que raramente chegam ao trabalho antes do meio dia.

Quando visitei o escritório, em junho, Gerogij Lobuskin, 25 anos, o porta-voz do VKontakte e único da empresa que tem contato com o mundo externo, veio ao meu encontro na saída do elevador. Atravessamos um corredor passando diante de uma série de cubículos vazios. No final, havia um escritório com a porta aberta. Várias plantas dessas que se usam dentro de casa obstruíam a janela; e no chão haviam alguma caixas de som Bowers & Wilkins pretas e caríssimas. Aquele, disse Lobuskin, era o escritório do fundador e administrador delegado de VKontakte, Pavel Durov.

Durov, 28 anos, considerado um prodígio da informática, é um fã de Matrix e com seus cabelos escuros, queixo saliente e uma predileção por roupas pretas, se assemelha um pouco com Neo, o personagem interpretado por Keanu Reeves. A imprensa ocidental o define, frequentemente, como o “Mark Zuckerberg russo”. Não se via Durov desde o início de abril, quando deixou o país depois de uma investigação aberta contra ele, acusado de ter passado em cima do pé de um guarda com uma Mercedes branca. Falava-se que ele poderia estar na Itália, o talvez na Suíça ou ainda nos Estados Unidos. Qualquer lugar que ele estivesse, em junho, ele não estava no seu escritório, e cada dia que passava o futuro da rede social se tornava mais incerto. Tem sido um ano turbulento para Durov e a sua empresa. Mais ou menos no período em que ele desapareceu, dois dos primeiros investidores no VKontakte e alguns amigos de velha data de Durov venderam suas cotas – que equivaliam a 48% do capital social – a um fundo de investimento ligado, segundo alguns boatos, ao presidente Vladimir Putin. Irina Levova, uma analista da associação russa para as comunicações eletrônicas garante que a aquisição de uma cota da Vkontakte se parece com o clássico método russo de uma “invasão legalizada”.

É inegável o recente interesse do estado pela internet. Além de estarem preocupados com as manifestações contrárias ao governo de dezembro de 2011, os colaboradores mais próximos de Putin se deram conta da importância daquilo que se diz e compartilha em rede. O Parlamento aprovou uma série de leis que reforça o controle sobre a internet e ampliam os casos nos quais é possível cancelar um site. A dúvida de agora é se o governo pode tentar controlar o VKontakte e outras redes sociais. A ausência de Durov em grande parte da primavera e do verão, não fez outra coisa que não fosse alimentar essas suspeitas.  Desde o momento em que estava na cúpula de vidro até chegar ao último andar do edifício Singer, Louskin tentou parecer tranquilo. Ele disse, no entanto, que o estado ou os novos acionistas podem comprometer o site: “não basta controlar as ações da empresa, nem pegar o seu lucro. Seria preciso controlar Pavel e isso é muito difícil”.

Individualista e egoísta

Durov cresceu em San Petersburgo. Seu pai, Valery, é um famoso filólogo que lecionou por alguns anos também em Turim, na Itália, onde Durov passou parte de sua infância. Nikolai, seu irmão mais velho, conquistou medalhas em torneios internacionais de matemática e programação. Quando era estudante da universidade estatal de San Petersburgo, Durov criou sua primeira rede social, um fórum para professores e estudantes. “Ele gosta de ser o ‘arquiteto’ que controla o sistema inteiro”, diz Nikolai Komonov, que escreveu uma biografia de Durov. “É um individualista e um egoísta. Trabalha somente para si mesmo, joga unicamente o seu jogo”, completa.

 Em 2006, Viaceslav Mirilasvili, um companheiro de classe de Durov que estudou com ele na Tufts University, entrou em contato com ele e propôs de criar uma rede social russa. Lev Leviev, um amigo de Mirilasvili, formado na McGill University e empregado na Ernest & Young, era um outro dos investidores. A eles se uniu o irmão de Durov, Nikolai, que, na época, estava fazendo o doutorado em matemática e, em seguida, se tornaria o chefe dos desenvolvedores. Grande parte do capital inicial foi colocado pelo pai de Mirilasvil, um empreendedor de San Petersburgo.

VKontakte deve seus lucros iniciais à posição pioneira no mercado russo. Na época, o Facebook era limitado àqueles que tinham um email de uma escola dos Estados Unidos. E ainda mais, segundo o diretor da Editora Rambler-Afisha, Juri Saprikin, o site foi feito por “programadores geniais”. A interface de VKontakte é, seguramente, mais intuitiva do que a do Facebook. Os tempos para carregar, no entanto, sobretudo em aplicativos de celular, são notoriamente inferiores. É difícil também subvalorizar o fascínio pela música, pelos filmes e transmissões de TV piratas disponíveis gratuitamente no site. Os usuários de VKontakte passam cerca de 8 horas por mês assistindo vídeos no site tornando-o um dos principais violadores do copyright (direito de autor) do país. Segundo as estimativas da ComScore, VKontakte tem 46 milhões de usuários mensais, enquanto o Facebook na Rússia tem 11,7 milhões.

No período em que VKontakte estava em ascendência, Durov aparecia raramente em público e falava pouco com a imprensa. O seu comportamento pode flutuar entre a idiossincrasia e a agressividade. Em maio de 2012, jogou um punhado de notas de 50 rublos (cerca de 150 dólares) de uma janela do edifício Singer em um dia de festa (segundo os meios de informação russos , Durov tem um patrimônio de 200 milhões de dólares). Brigou com os seus sócios para manter a publicidade ao mínimo e este um dos motivos pelos quais se pensa que os ganhos por usuário de VKontakte seja um sétimo do que ganha o Facebook. Quando Aliser Usmanov, um magnata russo de origem usbeque (povo turco da Ásia central, ndt), que possui 40% do site procurou examinar a parte de Durov e de seus sócios, Durov fez uma de uma postagem no twitter, sua “resposta oficial”: uma foto na qual mostrava o dedo médio. Usmanov, em seguida, transferiu seu direito de voto para Durov.

No início, as instituições deixaram Durov e sua empresa em paz. Enquanto Putin estava empenhado em consolidar o seu poder, no início dos anos 2000, o kremlin se preocupava, sobretudo, de reforçar sua influência na Televisão. O único funcionário que fazia qualquer insinuação sobre a relevância social e política da internet  era Vladislav Surkov. Conselheiro muito próximo de Putin e hábil manipulador político que se ocupou das estratégias midiáticas do Kremlin, Surkov tinha alguma abertura informal diante de Durov. Segundo o que disse um dos seus colaboradores, Surkov e e a sua equipe pensavam que Durov poderia ter dado conselhos sobre questões ligadas à internet. Durov, no entanto, ficou distante. “Sabia que tinha algo mais importante para fazer do que cultivar relações políticas”, disse o colaborador de Surkov. Estar distante era justamente o que lhe dava poder.

Manifestações de rua

Em dezembro de 2011, as eleições parlamentares, desde muito tempo julgadas como irregulares, fizeram aparecer o dissenso difuso na classe medida urbana. Em Moscou, foram realizadas as mais importantes manifestações de rua da era Putin. De repetente, a internet e as redes sociais assumiram um significado muito concreto para o estado. Durante os protestos, os escritórios de San Petersburgo, da Fsb, a agência de segurança interna russa, pediram a Durov para fechar sete grupos do VKontakte que estavam organizando e fazendo propaganda das manifestações. Durov postou no Twitter a sua “resposta oficial”: uma foto de um cachorro de moleton e capuz que mostrava a língua. Em seguida, um grupo de policiais, armados de metralhadora, se apresentou em sua casa, mas teve de voltar sem nada porque Durov se negou a deixar entrar.  Alguns dias depois, publicou uma carta aberta para explicar sua negação. A decisão em desobedecer a FSB foi determinada por motivos essencialmente econômicos: “se os sites estrangeiros continuam a existir livremente e os russos começarem a ser censurados, a rede russa é destinada a uma morte lenta”.

Considerada a importância da empresa de Durov e a sua determinação em se manter independente do regime, todavia,  é inevitável que se torne um personagem político. É um ícone para uma geração jovem que se livra do modelo paternalístico soviético e quer criar algo novo. “Há uma geração inteira que poderia dizer que cresceu com VKontakte”, conta Saprikin. E isso fez de Durov um alvo. Seus problemas com a lei começaram em 5 de abril de 2013, quando uma Mercedes branca, registrada no nome de Ilia Perekopski, um dos vice-presidentes de VKontakte, desobedeceu as ordens de um guarda de San Petersburgo. Como se vê na gravação de uma câmera de segurança, o carro procurou escapar do guarda. Em seguida, os investigadores disseram que, antes de se distanciar, o carro passou por cima do pé do policial. E segundo as suas suspeitas, quem estava dirigindo era Durov. VKontakte desmentiu, garantindo que Durov não dirige, mas as provas sugerem a sua presença no carro. O incidente se tornou um pretexto para fazer pressão sobre Durov e sua empresa. Em 16 de abril, os investigadores chegaram ao edifício Singer para conferir a sede de Vkontakte, mas Durov já tinha ido embora, dando início a um período de exílio.

O aguardava um choque ainda mais forte. Em 17 de abril, o Fundo de Investimento United Capital Partners anunciou a aquisição de 48% das ações da VKontakte compradas de Leviev e Mirilasvili. Durov ficou sabendo através de um jornalista de um jornal de economia russo Vedomosti que lhe pedia um comentário sobre o fato. Também o grupo de Usmanov que controla 40% da VKontakte foi pego de surpresa. Era insólito que uma cota tão grande tivesse sido comprada por um grupo que jamais havia feito contato com o fundador e nem com o principal acionista.

Começaram, imediatamente, as especulações sobre Ilia Serbovic, o manager da United Capital Partners e os componentes do conselho de administração do do gigante petrolífero estatal Rosneft. Parece improvável que o seu fundo tenha conseguido, sozinho, todo o dinheiro necessário: segundo as estimativas da Forbes russa, o fundo é responsável pela gestão de 3,5 bilhões de dólares, enquanto a sua cota na VKontakte teria custado cerca de um bilhão de dólares. Mas, graças as relações com o governo, poderia ter pedido ajuda aos bancos estatais. Uma fonte ocidental em contato com a cúpula de VKontakte disse que a rede social foi atingida pelo caso da United Capital Partners e pelos problemas legais de Durov. Em San Petersburgo, encontrei Elnara Petrova, uma ex jornalista, hoje empreendedora e mulher de um programador de VKontakte. “Todos não fazem outra coisa a não ser me perguntar como está Durov”, contou Petrova. “Como está um milionário que está passando um tempo na Europa? Eu diria, bem”, acrescenta. Segundo Ivan Stresinsky, administrador delegado de Usm Advisors, o grupo responsável pela gestão da participação de Usmanov na VKontakte, “Durov está em viagem por diversos países em busca de novas oportunidades de negócio”.

Em 7 de junho, as autoridades russas anunciaram que identificaram Durov como o motorista da Mercedes, mas de terem rebaixado a sua infração a um ato administrativo que pode ser resolvido com uma pequena multa. Depois de poucos dias, Durov reaparece em San Petersburgo numa festa da da Megafox, uma operadora de telefonia móvel, em parte, propriedade de Usmanov. Aquela, no entanto, foi sua única aparição. No final de junho, eu estava sentado num bar de Moscou com Komonov, o seu biógrafo, quando decidimos mandar uma mensagem a Durov no VKontakte. Ele nos respondeu depois de poucos segundos: “voltei”. Não respondeu a nenhuma outra pergunta.

Apesar do retorno de Durov, o futuro de Vkontakte e o papel do fundador na empresa não estão claros. Se a United Capital Partners não desse o seu apoio à nomeação a Durov como administrador delegado, a empresa poderia afundar numa crise. Sherbovich disse que vai manter Durov em seu posto e de somente querer aumentar o valor do site. E para fazer isto, é melhor ter Durov. Mas a chegada United Capital Partners permite controlar aquilo que se discute no site e quem o faz. O governo não quer mais ser pego de surpresa. Como diz Komonov, a cota da United Capital Partners é como uma “seguro no caso de futuros cataclismas políticos”.

A Assembleia Legislativa aprovou uma outra lei que prevê o fechamento de conteúdo pirata. Tendo em conta o tesouro de músicas e vídeos gratuitos disponíveis em VKontakte, essa medida poderia representar uma ameaça mais imediata. Na metade de junho, talvez para fugir das regras iminentes, o site começou uma massiva campanha para cancelar as canções piratas das páginas dos usuários. O aperto pode ser o primeiro passo na direção do que Sergei Zelezniak, vice-presidente da Assembleia, definiu como “soberania digital”. Isto quer dizer que cada empresa de internet estrangeira, como o Facebook, estaria obrigada a colocar seus servidores na Rússia, fazendo com que sites deste tipo possam ser mais facilmente controlados e bloqueados. Um movimento desse tipo tem semelhanças à situação da China, onde o estado obriga o usuário a usar versões locais de suas redes sociais.

Terrível sensação

VKontakte poderia se tornar grande demais e a aposta política muito alta para manter o site fora das mãos do Kremlin. Oleg Kasin, um importante jornalista que encontrou Durov no edifício Singer na primavera passada, disse que a conversa deles deixou uma “terrível sensação”. Durov contou como não teria desfigurado do lado das mentes mais brilhantes do Silicon Valley. Ao contrário, explicou Kasin, “foi obrigado a fazer um acordo com os “siloviki”(políticos provenientes dos serviços de segurança ou do exército), tendo relacionamento amigável com os oligarcas russos”.

Em 23 de junho, Durov dá sinal de vida postando no VKontakte a sua reação à lei contra a pirataria. Exaltou o sucesso das empresas tecnológicas na Russia, escrevendo que este “milagre” estava fundado em dois fatores: “uma população talentosa e instruída e a falta de uma regulamentação muito rígida na esfera da internet”. Agora, um desses fatores não existirá mais. E colocou uma pergunta: uma força de trabalho de talento está em condições de fazer florescer a internet na Russia mesmo com o controle do estado? “se a resposta fosse positiva”, escreveu Durov, “então a nossa força seria verdadeiramente sem limites”.

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Rafael Vieira, 6.10.2013