NOVIDADE

PE. ALDO BUONAIUTO: “A MISÉRIA QUE DESAFIA E ENFRAQUECE”

Belíssimo artigo que joga luzes na celebração da quinta jornada mundial do pobre, instituída e celebrada pelo Papa Francisco.

A miséria que desafia e enfraquece. O que tira tudo de nós

Aldo Buonaiuto
Sábado, 13 de novembro de 2021

Um encontro forte e cheio de verdade, o vivido pelo Papa Francisco na Assis do frade pobre. Foi comovente ver o Papa entrar na basílica de Santa Maria degli Angeli com o cajado de peregrino e uma capa recebida de presente. Apelo sincero do Papa para dar “voz” aos pobres, tornando-os verdadeiros protagonistas da história e não mais presenças “incômodas”, mal toleradas. “Está na hora – disse – de se romper o círculo da indiferença” diante da vergonhosa “hipocrisia de quem quer ficar muito rico”, mesmo jogando “a culpa nos ombros dos mais fracos”. Há uma pobreza que é causa e efeito de todas as outras: pobreza interior. A ganância do egoísmo nos impede de ver o outro como um recurso e envolve um fechamento para os outros que se torna uma condenação à infelicidade.

Francisco queria um Dia Mundial dedicado aos pobres para solicitar uma reflexão sobre as raízes da verdadeira pobreza. E na quinta edição reforça o seu significado ao antecipar a sua celebração na Cidade da Paz e da Solidariedade. Colocando o grito dos pobres na base da vocação universal da Igreja. Erguer paredes interiores, resistir ao confronto com irmãos e irmãs, causa a impossibilidade de transformar a sociedade em comunidade. Mesmo um rico pode ser pobre se estiver internamente bloqueado, fossilizado, impedido de se relacionar com quem busca e oferece oportunidades de diálogo. Sentir-se uma ilha, demarcar o próprio território causa um empobrecimento humano e social que é, por si só, causa de graves incômodos. O desemprego não é apenas um fenômeno econômico destrutivo, mas é o sinal de uma comunidade que deixou de se projetar no futuro e de se amar. Investir significa confiar na positividade e na rentabilidade das relações interpessoais.

A redução das dinâmicas socioeconômicas a uma troca financeira mortifica a vida individual e comunitária, conferindo-lhe a consistência de um castelo de cartas, desengatado pelo calor e a riqueza de um contato que se torna uma partilha do que só se constroem juntos. O infatigável apóstolo da caridade, padre Oreste Benzi, exortou-nos a construir a sociedade da gratuidade em vez de afundar na do lucro exasperado. No Magistério dos Papas ocorre a mesma distinção entre economia do dom e ganho egoísta, precisamente porque a visão econômica e social da Igreja se baseia em um “eu” capaz de se tornar um “nós”.

A pandemia demonstrou a necessidade de uma resposta comum a um problema que é muito sério para ser resolvido individualmente. A tentação diabólica de descartar os mais frágeis e aparentemente inúteis equivale à loucura criminosa que nas páginas mais sombrias da história lançou a humanidade nos abismos mais imundos. A vida, desde a concepção até seu fim natural, continua sendo a riqueza mais preciosa que possuímos e que sustenta a casa comum a ser transmitida às próximas gerações. Defender criaturas e criação representa o melhor projeto no qual investir recursos e energia. No entanto, é cada vez mais difícil ouvir o clamor dos pobres.

Enfrentamos uma pobreza invisível crescente que fingimos ignorar, mas que nos atinge. Uma expressão disso são os pobres que jamais poderão pedir nossa ajuda, acorrentados como estão na dependência, às formas modernas de tráfico e escravidão, à perda do senso de apego, à vida cotidiana que empurra muitos para a marginalização.

A pandemia demonstrou a necessidade de uma resposta comum a um problema que é muito sério para ser resolvido individualmente. A tentação diabólica de descartar os mais frágeis e aparentemente inúteis equivale à loucura criminosa que nas páginas mais sombrias da história lançou a humanidade nos abismos mais imundos. A vida, desde a concepção até seu fim natural, continua sendo a riqueza mais preciosa que possuímos e que sustenta a casa comum a ser transmitida às próximas gerações. Defender criaturas e criação representa o melhor projeto no qual investir recursos e energia. No entanto, é cada vez mais difícil ouvir o clamor dos pobres.

Cabe a nós ir procurá-los, oferecer o bálsamo evangélico da misericórdia e da Palavra, de sustento sem segundas intenções. O diálogo pressupõe a vontade de ouvir e só o amor nos ensina a dialogar sem dominar. Quantas vezes estivemos ocupados demais para notar quem está sofrendo sob nossos olhos? Como remediar a falta de atenção daqueles que navegam conosco no mesmo barco durante uma tempestade? A marginalização é o passo decisivo para a pobreza.

Os ‘indesejados’ não fazem notícia, não vão às ruas, não clamam à conspiração, nunca se tornam um problema tangível, mas colocam uma questão indispensável à nossa consciência: a pedra da indiferença que sufoca e empobrece a alma. O Papa Francisco costuma dar uma efígie aos poderosos que o visitam: São Martinho que dá o manto aos pobres. Como dizer, se foi ele, por que não podemos fazer também? Nenhum lugar melhor do que a Porciúncula simboliza a missão da Igreja pobre para os pobres.

Texto original

https://www.avvenire.it/opinioni/pagine/ci-che-ci-toglie-tutto