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PE. FARINELLA: UM NÃO AO DEUS DOS PODEROSOS E UM SIM AO DEUS DOS OPRIMIDOS

Um padre italiano da diocese de Gênova, Paolo Farinella, escreve coisas incríveis, proféticas e que merecem a reflexão honesta de qualquer cristão católico que procura viver em coerência com o seu Batismo. Depois de nos despedirmos de Dom Pedro Casaldáliga no último sábado, 8 de agosto de 2020, andei a procura de um antigo (foi escrito em 2013) e pequeno texto do Pe. Farinella. Encontrei e reproduzo abaixo. O original está no site do micromega-online do jornal italiano La Repubblica. O texto faz parte do livro: «Cristo non abita più qui. Il grido d’amore di un prete laico per Gesù, contro il Vaticano» (Editora Il Saggiatore).

 

por Pe. Paolo Farinella

Eu, Paolo Farinella, um padre católico cristão, incardinado na igreja local de Gênova, ciente da gravidade do momento histórico para o mundo, igrejas e religiões, em plena posse das minhas faculdades mentais e espirituais, com este duplo ato público de abjuração e de fé, quero lançar uma pequena semente como testemunho presente e futuro. O silêncio vale a pena, o silêncio é uma falta e, às vezes, um escândalo vergonhoso do silêncio e da cumplicidade.

Eu abjuro o Deus da “identidade nacional e / ou europeia”, proclamado pelo clericalismo em aliança com a direita e a Liga do “deus Po”.

Eu abjuro o Deus da (in) civilização ocidental que se presume superior às civilizações africana, asiática e chinesa.

Eu abjuro o Deus “não neutro” que a Europa e os EUA, ao promoverem guerras, anexam como blasfemo exportador de democracia, deles.

Eu abjuro o (s) Deus (es) Cristão (s) e terrorista dos fomentadores de guerra que se gabam das guerras de invasão como “intervenções humanitárias” para justificar seu roubo de petróleo, gás e matérias-primas.

Eu abjuro o Deus dos políticos italianos, que se autodenominam católicos e que apóiam a degradação moral e institucional do piduísta Berlusconi Silvio, o símbolo físico da decadência democrática.

Eu abjuro o Deus que as religiões usam como uma britadeira para guerrear umas com as outras.

Eu abjuro o Deus que os capelães militares, servos da guerra e da morte invocam antes de qualquer ação bélica a favor de seus “meninos” e contra os “meninos inimigos” (?).

Eu abjuro o Deus invocado pelo (s) militar (es) Cristãos que primeiro matam e, se algum deles morre, eles o louvam como o “herói” da pátria com funerais religiosos e de estado.

Abjuro o Deus invocado nas “missões humanitárias” entre hinos e canções de bombas, foguetes, mísseis e metralhadoras.

Eu abjuro o Deus do (s) soldado (s) cristão (s) que torturam os filhos de outro Deus ou de nenhum deus, por mais semelhantes que sejam, protegidos por tratados internacionais.

Abjuro o Deus invocado pelos bispos no funeral de soldados ou mercenários de guerras preventivas, ou seja, de invasão.

Eu abjuro o Deus invocado pelo Cardeal Tarcisio Bertone para abençoar os porta-aviões militares, especialmente construídos para matar “profissionalmente” e cientificamente.

Eu abjuro o Deus dos ricos, se eles não se converterem primeiro ao Deus do buraco da agulha que derruba os poderosos e levanta os pobres.

Eu abjuro o Deus dos que se sentam à mesa dos poderosos, negando a mesa dos pobres.

Eu abjuro o Deus dos fundamentalistas de qualquer religião, cultura, nação e identidade.

Eu abjuro o Deus usado pelos eclesiásticos como droga para adormecer a consciência das pessoas e dos povos.

Eu abjuro o Deus das hierarquias religiosas, conspiratoriamente mudo, porque conluio com o poder atual.

Eu abjuro o Deus das liturgias espalhafatosas de púrpura e linho fino que nega o Deus da História.

Eu abjuro o Deus da diplomacia, conveniências e complacências, negação explícita do Deus de Jesus Cristo.

Eu abjuro o Deus do Vaticano, deus da conveniência, deus do dinheiro, deus instrumento da ignomínia e da corrupção.

Eu abjuro o Deus dos bispos, vendido em alma e corpo a políticos corruptos e criminosos. Eu abjuro o Deus dos “moderados” esvaziados pela ruptura revolucionária de sua mensagem.

Eu abjuro o Deus dos “princípios inegociáveis” que anula a cruz em sinal de contradição.

Eu abjuro o Deus dos políticos clericais que rejeita os imigrantes matando-os no mar Mediterrâneo.

 

Creio no Deus de Jesus Cristo, Filho de Deus e filho do Homem, o último dos últimos.

Eu acredito no Deus pobre, nu, estrangeiro e crucificado, Pai dos pobres, do nu, do crucificado e do sem-teto.

Eu acredito no Deus dos oprimidos de qualquer religião, cultura, nação e identidade.

Eu acredito no Deus das pessoas não violentas que sofrem violência, poetas da paz.

Eu acredito no Deus que abjura o templo, a religião e o poder como ferramentas opressoras.

Acredito no Deus sacrificado nas vítimas inocentes das guerras no Iraque, Afeganistão, Eritreia, Mali e em todas as guerras.

Eu acredito que o Deus palestino segregado atrás do muro israelense da vergonha.

Eu acredito no Deus do Judeu Jesus que oferece sua vida pelos palestinos, israelenses, ocidentais e orientais.

Acredito que o Deus cristão foi torturado em Guantánamo, Abu Ghraìb e Falluja por soldados ocidentais, que se autodenominam cristãos.

Acredito no Deus do céu e da terra, sem pátria, sem nação, sem civilização, Deus do vento que respira liberdade.

Acredito no Deus dos homens de boa vontade, poetas, construtores de paz e de pontes.

Acredito no Deus que condena os exércitos, suas armas e aqueles que os abençoam, contra-testemunho do Deus da paz.

Eu acredito no Deus que perdoa seus crucificadores, enquanto eles o pregam até a morte.

Acredito no Deus Pai e Mãe que caminha com mulheres e homens, sem distinção de pessoas, língua e nação.

Acredito no Deus silenciado pelo silêncio pecaminoso das hierarquias, alegre em suas vestes esvoaçantes.

Acredito no Deus que conforta os aflitos, ama os estranhos, favorece os excluídos.

Eu acredito no Deus violado em cada criança, dentro e fora da Igreja.

Acredito no Deus que se horroriza a cada ato de pedofilia, principalmente dentro das paredes do templo.

Eu acredito no Deus que nasce e renasce em cada coração, que ama perder sem pedir nada em troca.

Eu creio no Deus de misericórdia que virá julgar o mundo somente pelo Amor e pela justiça de consciência.

Paolo Farinella, um padre ateu pela graça de Deus, crente por causa da razão

(12 de maio de 2013)