NOVIDADE

POLARIZAÇÃO ATUAL DA CULTURA ENTRE MASCULINO E FEMININO

Ideias. Elogio à mediação
Gabriella Cotta Domingo, 18 de julho de 2021
“Em tempos de polarização, por parte feminina e masculina da cultura não se propõe mais o caminho dialético entre diversidades destinadas a coexistir, mas o de sua pluralização”

Vivemos tempos estranhos, caracterizados por polarizações extremas e divergentes que nos deixam perplexos e sem capacidade compensatória. Desenvolvimento tecnológico de incrível sofisticação e precisão que atinge o propósito declarado de uma verdadeira maquinação do corpo humano vs. elogio e domínio da instintualidade e da emocionalidade no repúdio a qualquer forma de racionalismo, acesso quase ilimitado a qualquer tipo de informação vs. ignorância do retorno desenfreado e embaraçoso, concentração de riqueza nunca vista antes vs recuperação significativa da pobreza até a desnutrição. Na esfera política, então, a demanda do populismo por uma partilha e gestão do poder cada vez mais ampla é contrabalançada pelo aumento numérico e pelo peso geopolítico dos regimes autoritários, muitas vezes nascidos em torno da promessa de libertação universal.

Poderíamos continuar por muito tempo, mas sem podermos apreender os reais motivos de tal deslocamento ou despertar o interesse de quem responde a essas constatações com a constatação de que, na história da humanidade, sempre existiram os contrastes mais radicais. , destinado a se repetir de várias formas ao longo do tempo. A esta objeção, que se apresenta com uma impossibilidade desconcertante e pontual de argumentos definitivos tanto por parte daqueles que sustentam a dramática novidade dos tempos atuais, quanto daqueles que respondem sobre a repetitividade das crises induzidas por divergências extremas, é agora apropriado apontar um lugar crucial onde tentamos responder de uma forma completamente nova às diferenças ontológicas que sempre nos constituíram.

Refiro-me àquelas polaridades até agora consideradas constitutivas do humano, que condicionam em sua raiz suas atitudes, habilidades hermenêuticas e simbólicas, ações, escolhas: o feminino e o masculino. O caminho que hoje uma parte significativa da cultura, sobretudo a ocidental, se propõe trilhar é aquele, não mais de mediação dialética – e, espero, dialógica – entre diversidades destinadas a coexistir e interpenetrar – de forma mais ou menos equilibrada – e nem mesmo o de luta e demanda para alcançar a igualdade efetiva de status. Trata-se, sim, de uma pluralização das formas clássicas de identificação nos gêneros feminino e masculino, expressas pela sigla lgbt ora apresentadas como descritivas da nova sexualidade e, portanto, tornando-se por sua vez um ‘clássico’ em processo de contínua superação. com o surgimento de inúmeras outras “declinações”.

O que é que se revela nesta proliferação de opções de gênero? Algo que vai além do enorme peso que a fluidificação sexual carrega: a manifestação da incapacidade – ou recusa consciente – de nossa época de operar e implementar comportamentos, escolhas, ações de mediação entre diferentes polaridades. A comutação oposta entre uma artificialização cada vez mais profunda da corporeidade – das intervenções estéticas, ao processo generativo para chegar às propostas do ciborgue – e a exaltação cada vez maior do referido instinto emocional são evidências claras disso. Mas é justamente com o abandono progressivo de qualquer capacidade-vontade de estabelecer uma dialética mediadora na polaridade feminino-masculino que, durante algum tempo, ele trilhou caminhos de profundo – e sacrossanto – repensar sua dinâmica interna com pedidos de reexame. -significação e ressantização e reequilíbrio nas estruturas sociais e políticas, que revelaram a forma alternativa e nova de aceitar todas as facetas possíveis das determinações dos dois pólos originários da sexualidade.

Porque, de facto, definir, de acordo com os traços restritivos de uma dualidade que é apenas aparentemente maioritária, os limites da nossa pertença identitária – já que sem dúvida a nossa pertença a uma ou outra esfera sexual nos identifica – e não aceitar em seu lugar todas as formas de exercício da sexualidade segundo uma perspectiva de totipotência variada? A solução proposta promete ampliar o espaço de liberdade individual criando, de forma marcusiana, uma democracia que se completa definitivamente, mas, pelo contrário, corre o risco de dissolver toda a identidade, esvaziando dramaticamente qualquer possível relação emocional de sentido e perspectiva.

O pluralismo das opções de gênero, de fato, parte do pressuposto de um “vazio” de sentido em pertencer a um ou a outro gênero biológico, já que estes não são mais considerados portadores de qualquer conteúdo. Por outro lado, a percepção individual de si passa a ser central, revertendo para a dimensão cultural, em sentido amplo, o que antes era atribuído ao dado biológico como determinação originária. Acreditando assim para se libertar das amarras das determinações biológicas, acaba-se optando por uma sujeição àquelas impostas pelo contexto histórico-cultural que nos hospeda. Isso, no entanto, ao mesmo tempo que contribui para a nossa formação, certamente não é o único fator determinante do desenvolvimento humano, como há muito a psicanálise explica como os pequenos impulsos e desejos são a expressão original e integral da liberdade de todos.

Mesmo neste contexto tão delicado, como o da sempre renovada adesão à feminilidade ou masculinidade de cada um, passagem que preside à construção do aparato simbólico, verbal, decisório, afetivo, racional, enfim a construção da identidade de cada um, o que falta é a capacidade / vontade de operar uma contínua mediação dialógica com a diferença que o outro pólo continuamente nos apresenta e representa. Isso requer deixar os enclausuramentos de um eu autorreferencial, abertura à diversidade, vontade dialógica, superação do narcisismo que é muito fácil para todos se entregarem. As dinâmicas congestionadas da dialética original da sexualidade, então, são aquelas que se condensam no individualismo autorreferencial e triunfante subjacente às polaridades opostas inicialmente mencionadas. Será por acaso que as duras críticas à desumanização do neoliberalismo ou do aceleracionismo produtivista e financeiro fiquem sem respostas efetivas?

Texto original/ ilustração do jornal

https://www.avvenire.it/agora/pagine/elogio-della-mediazione