LI, VI, OUVI, ESCREVI

PRECE CEARENSE

A última semana de janeiro de 2016 foi um tempo de aventura especial em Fortaleza. Chuva todos os dias acompanhadas de um mormaço assustador. E os gordinhos que se virassem. Era o tempo e pronto. Haviam nesgas de sol em algum começo de manhã e finais de tarde. O resto era só água que caía com vontade. Todo mundo estava feliz com a situação e as únicas lamúrias vinham de turistas que sentiam as férias arruinadas. Mas isso era pura bobagem. Na TV se confirmava o que as pessoas mais esperavam: o dobro do volume esperado de chuvas estava deixando os açudes do Ceará em bons níveis para se enfrentar os meses de seca que prometiam também serem abundantes. E o povo daquele lugar fazia uma diferença colossal para qualquer visitante. Pura simpatia, gentileza e muitos sorrisos. Mesmo quando não se importavam com a gente, as pessoas eram agradáveis porque conversavam animadamente e diziam, em voz alta, expressões curiosas. Num ônibus, ouvi uma mãe dizer a um garoto que tinha, no máximo, uns quatro anos: “se ajeite, macho! ”. E na praia, uma senhora dizia a outra: “mas num é, mulher”.

Leonard Martim e Dragão do Mar

Todos os dias havia um programa obrigatório: ir a um Centro Cultural construído numa antiga área portuária durante o governo de Ciro Gomes, nos anos de 1990. O espaço foi feito para o encontro das pessoas. Há restaurantes, bares, palcos em perfeita harmonia com teatros, anfiteatros, museus e passarelas ao lado de um velho casario. Tudo isso bem na frente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição que é parte do Seminário da Prainha, fundado em 1864, onde também funcionaram o ITEP, Instituto Teológico de Pastoral do Ceará e o ICRE, Instituto das Ciências da Religião. Hoje, as duas instituições despareceram para dar lugar à Faculdade Católica. O ITEP foi dirigido por vários anos por um nobre teólogo da Moral, o professor Leonard Martin. Um padre redentorista irlandês que se naturalizou brasileiro e faleceu ainda muito jovem em 16 de março de 2004. Ele era brilhante. Fez seu doutoramento no Brasil e se ocupou com a Bioética. Foi membro do Conselho Nacional de ética em pesquisa do Ministério da Saúde e escreveu um dos melhores textos que conheço sobre homossexualidade na perspectiva cristã para servir de apoio na discussão da Câmara dos Deputados, em Brasília. Eu sempre achei que não teria mais graça vir a Fortaleza sem me encontrar com o Léo.

Braços de Morfeu

Dormi as manhãs inteiras. Todas, sem exceção. Minha relação com o sono é algo ainda enigmático às vésperas de completar 53 anos de idade. Pareço um adolescente que não suporta levantar cedo. Eu coloco em questão as verdades mais sólidas, na hora de me levantar, de manhã. Um amigo me fez uma oferta preciosa no ano passado: me deu de presente, uma pequena imagem de Jesus dormindo. Tenho uma felicidade ímpar quando olho para ela. Coloquei-a estrategicamente ao lado da minha cama lá na minha casa. Portanto, não dou notícias sobre coisa alguma que tenha acontecido na parte da manhã desses dias. Estava sempre dormindo. O cardiologista que me atende disse, depois de verificar o resultado do mapa de pressão de 24 horas, que o meu sono tem me garantido muitos benefícios. Aí juntou a fome com a vontade de comer. Já não tenho culpa por dormir muito, há anos. Mas, me aborreço, mortalmente, com a impressão que passo de que não trabalho muito por causa disso. Ninguém vê a hora que vou descansar a noite e que não durmo à tarde. O passeio a Fortaleza me deu, enfim, uma vida de bebê: sono de 12 horas por dia durante uma semana.

Jeh, Alessandro e o taxista

Jantei várias vezes num restaurante chamado “Alma Gêmea”. No primeiro e no último dia, estavam cantando para animar os comensais, dois jovens lindos e talentosos: Jéssica e Alessandro. O repertório era delicioso. Passavam por compositores nordestinos como Caetano Veloso, Zé Ramalho, Zeca Baleiro, Pity e Fagner até Legião Urbana e o mixer de Os Tribalistas. O tempo da refeição se estendia por horas. E eu nem me lembrava das histórias de restrições que o meu novo estado de saúde exige que é um compasso de espera pelo diagnóstico do Diabetes. Comia os pratos que mais combinavam com o prazer da ocasião. E nem eram tão caros. Tudo junto ficava quase pela metade do preço de um jantar razoável em Brasília. A voz da Jéssica, um primor. A do Alessandro, segura. E ainda eram acompanhados por um percussionista que transformava dor e desconforto em música. Ele tocava um instrumento que exigia que se sentasse e tocasse com a coluna em curva. Eram várias sessões de alongamento entre as canções e as caretas que logo tornavam-se sorriso e simpatia. Na última noite, veio a cereja sobre o bolo. Depois do jantar e do show da Jeh e do Alê, tomei um taxi para ir para casa. O taxista tinha uns sessenta e poucos anos, barba por fazer. Logo que entrei no carro, ele disse: “olha o que tenho para você! ”. Colocou uma música do Belchior e cantarolou junto. Apesar dele dizer que era o “maior” sucesso do cantor, eu não conhecia. Em seguida, quase chegando em casa, ele quis que eu ouvisse “Paralelas”. Quando cheguei, paguei e, ao sair, ouvi ele dizer: “vou ficar aguardando você entrar”. Não havia ninguém na Portaria. Voltei-me para ele e disse: “vou ter de entrar pela outra portaria que fica no outro lado da rua”. Ele respondeu sorridente: “Eu acompanho você”. Fui andando e rezando. Na pessoa daquele senhor desconhecido estava a mão de Deus me amparando, me protegendo. Enquanto andava, fiz minha prece. Depois que cheguei na outra portaria, entrei, acenei e agradeci. Ele disse: “Ele está no Uruguai!”. Eu fiquei meio confuso. Ele sorriu ainda mais largamente e completou: “o Belchior!”. E foi embora.

Rafael Vieira, 28.01.2016

CONFIRA

Chuva em Fortaleza

http://g1.globo.com/ceara/noticia/2016/01/chuva-desta-quinta-feira-em-fortaleza-e-maior-ja-registrada-em-2016.html

Homossexualidade na Perspectiva Cristâ. P. Leonard Martin, CSsR

http://www.scribd.com/doc/295963968/A-Homossexualidade-Numa-Perspectiva-Crista#scribd

Jéssica e Alessandro

https://www.facebook.com/Jeh-Al%C3%AA-1571332253132806/timeline