LI, VI, OUVI, ESCREVI

PREGADORES SUPERSTARS NA NIGÉRIA

A revista “Internazionale”, em sua última edição, traz uma análise de uma escritora nigeriana sobre a situação das igrejas pentecostais em seu país. Eu não resisti em traduzir porque se encaixa quase perfeitamente na situação brasileira. Compensa ler, mesmo sendo um texto longo. Recomendo. Tradução sem ajuda do Google. O estudo foi publicado originalmente numa revista da Cidade do Cabo, na África do Sul.

NIGÉRIA

Pregadores superstar

Yemisi Ogbe, Chiumurenga, África do Sul.

Carros de luxo, roupas de grifes caras, mansões confortáveis. Na Nigéria, pastores protestantes são celebridades. Dos púlpitos e das igrejas prometem riqueza e bem estar aos fiéis. Mas sabem, sobretudo, fazer dinheiro, frequentemente de modo ilegal.

Frequentava a minha igreja há quatro anos quando comecei a sentir necessidade de escrever alguma coisa sobre os homens de Deus nigerianos. Era um desejo sufocante. Eu ficava grudada no meu banco quando o pregador dizia: “olha para quem está do seu lado e diga…”. Eu não olhava. Não dizia nada. Ficava parada e esperava, provocatoriamente, que quem estivesse do meu lado encontrasse outra pessoa com quem rezar. Não tinha ido à igreja para jogar fingindo ser a “boa vizinha” e para ouvir fórmulas bizarras: “Diga à pessoa que está perto de você: ‘você é o homem’, ‘você é o homem!’”.

Normalmente, os pregadores atravessam os palcos a passos largos e se dirigem ao púlpito de vidro que fica no centro. É um homem bonito, mais alto que a maior parte dos fiéis. Tem 42 anos, cabeça raspada. Está sempre muito bem cuidado, veste roupa cara, usa um relógio com diamantes, uma pulseira de ouro. Veste roupa sob medida, com assinatura de Ermenegildo Zegna, uma casa italiana de moda famosa porque veste os atores de Hollywood na noite de entrega do Oscar. Procuro no Google “Ermenegildo Zegna”. Quero entender que tipo de pessoa usa essas roupas. Os resultados são: Adrien Brody, Kiefer Stherland, Tde Danson e outros. Na Ningéria, ninguém os conhece. São personagens difíceis para se comparar os com os homens de Deus nigerianos, os nossos superstar: Chris Oyakhilome, David Oyedepo, Chris Okotie, Paul Adefarasin, Jt Kalejaiye e Ayo Oritsejafor.

Os pregadores falam inglês com acento americano, um detalhe que revela a obsessão pelo modelo deles na América do Norte, o pastor evangélico Td Jakes ou uma herança dos anos nos quais estudaram nos Estados Unidos. E eles dizem: “Vocês sabiam que foi Ele que me fez levantar essa manhã? A me levantar da cama? Alguns morreram durante o sono. Outros não conseguiram a chegar em seus carros. Ele colocou o alimento nas mesas de vocês, roupas em seus corpos”.

A comunidade chama o pastor de baba (pai), conferindo-lhe o papel de chefe, de líder espiritual e de supervisor geral da igreja e de todas as almas que a frequentam. Os presentes são arrebatados por suas palavras. Ficam em pé, como sinal de respeito. Batem palmas e exultam com fervor. O pregador diz: “Dá-me o pão de cada dia! Quer o que me ajudem repetindo comigo: ‘Quero o meu pão’”. As pessoas respondem com obediência. “Jesus disse para pedir hoje, o pão de cada dia. O pão serve para serem fortes na vida, e quando digo ‘pão’, estou querendo falar do verdadeiro pão. Vocês precisam de um carro, assim vocês não ficarão cansados andando por aí de ônibus”. A assembleia o aclama com muito barulho. “Ouçam-me! Vocês, mulheres, precisam de um marido para não dormirem todas as noites com o travesseiro encharcado de lágrimas. Vocês precisam de dinheiro, dinheiro no bolso para não morrerem em uma casa popular. Vocês precisam do pão para sobreviver! Quantos de vocês, neste momento, precisam de um carro? A resposta positiva é dada com entusiasmo.

Roupas boas e sapatos usados

O pregador tem o hábito de expirar fazendo barulho no final de cada frase. Talvez o faça para dar mais ênfase ao seu discurso ou talvez seja mais um sinal de adesão total ao cristianismo evangélico norte-americano. A sua inteligência e sua reta intenção nunca são colocadas em dúvida e ele consegue sempre as respostas que quer porque conhece bem a sua comunidade.

Por exemplo: ele sabe que a assembleia é composta em 70% por estudantes. Pessoas que não ganham salários, mas são, em todo caso, a “alma” da festa. Esses jovens acreditam que em algum lugar há um trabalho sob medida para eles, que o carro e a casa vão de materializar do nada e que a vida deles, de um modo ou de outro, vai ser boa. A ideia da morte é muito distante. Os estudantes são felizes, barulhentos, otimistas, o fundamental para se manter uma atmosfera alegre, e, por isto, são também necessários para chamar a atenção dos fiéis mais adultos.

Nas primeiras filas sentam-se os idosos. Este grupo compreende sejam as pessoas que vem na igreja há muito tempo, sejam os idosos importantes. São cerca de 2% da assembleia e têm propriedades imobiliárias na Nigéria, na Europa, nos Estados Unidos e na África do Sul. Cada um deles têm mais de dois carros, ações, conta correntes e consideráveis poupanças em moeda estrangeira. Os 15% da assembleia são formados por pessoas que vestem roupas de domingo e sapatos usados no duro trabalho. São assíduos frequentadores da igreja, pessoas que fazem as suas ofertas, mesmo que modestas, com grande devoção. Dão esmolas somente quando têm algum lucro a mais e creem em cada palavra pronunciada pelo pastor.

O resto da assembleia é a “fachada” da igreja, aqueles que, recentemente, foram definidos como “o objetivo de mercado mais importante”: homens cristãos, casados ou solteiros, na faixa dos 30 anos, que dirigem um respeitável carro de segunda mão ou comprado à prestação. Ganham um salario bruto de centenas de milhares de “naira”(mil nairas equivalem a cinco euros). Podem ter roupas de qualidade média e alugar uma casa. Eles têm dinheiro suficiente para ir à Europa ou aos Estados Unidos uma vez por ano. Falam bem o inglês, as vezes com um sotaque britânico ou americano, cultivado com muito cuidado. As vezes também, formados em alguma universidade europeia ou americana. Frequentemente, trabalham em bancos, numa empresa de petróleo o setor de telecomunicações. O seu ponto forte é o seu potencial: ainda que não estejam destinados a fazer muito sucesso, poderão de dar bem porque possuem um salário regular, os fascínio da juventude, a idoneidade para serem escolhidos como marido e a possibilidade de manter os filhos. Com um certo equilíbrio de cinismo e ambição, representa o arquétipo do nigeriano bem organizado, que se move com facilidade no ambiente. Não arriscam, de modo algum, de perderem a sua fé.

Quando a assembleia se cansa de assobiar, aplaudir ou de gritar, o pregador pressiona o público: “Então, vocês não querem me ajudar?”. Os fiéis se engajam, no fim, por causa de suas frases e promovem longos aplausos e aclamações. Ele deixa que todos se acalmem pedindo, na brincadeira, que não se agitem tanto. À medida que vai apresentando o seu sermão, ele se torna mais explícito no tom e nas metáforas. Ele precisa concluir de maneira a deixar todos satisfeitos. As analogias que usa não mudam muito de um domingo para o outro. O estado da economia nigeriana não tem mudado muito nos últimos 20 anos.

As difíceis condições de vida levaram, seguramente, os nigerianos a buscar um crescente fervor religioso. Neste contexto, é fácil procurar um barulhento mercado de fé dominado por falsos e presunçosos devotos. Os vendedores são agressivos porque estão convictos que a aposta é bastante alta. Dizem que querem salvar as almas do inferno e levar as pessoas para uma prosperidade sobre a Terra desejada por Deus. Uma prosperidade da alma, da mente e do corpo. Para os céticos, tudo isso se trata apenas de dinheiro. E se isso fosse verdade, isso valeria somente para os líderes porque o dinheiro vai sempre para o alto e, raramente, para baixo. A leadership religiosa na Nigéria não é somente uma questão de dinheiro. É também uma questão de influência, poder e fascínio de ser Deus, ou menos ser idolatrado e comparado a Deus. O pregador consegue atingir, com suas palavras, pessoas normalmente inteligentes que são levadas a crer que elas têm o poder de abençoar e de amaldiçoar, de decretar quem elas realmente são, com quem vão se casar e o sucesso que vão fazer na vida.

É como um Papai Noel que diante de qualquer pedido responde com um sonoro “sim”, porém, a promessa de riqueza não é grátis. Pede em troca: amor, tempo, ofertas, fundos para a igreja e fidelidade a um influente homem de Deus. E uma coisa ainda mais importante: o cristão nigeriano é obrigado a fazer crescer a sua igreja. Deve obedecer as suas leis e garantir o bem estar e a sobrevivência de sua congregação em uma economia precária.

Pode ser que o cristianismo nigeriano, em seu agressivo isolamento, seja, sobretudo, uma questão de dinheiro e poder, mas tem a ver também com o medo de Deus e dos seus representantes, a necessidade de entender as contradições surreais de viver num país que importa palitos de dente, maçãs suíças e pernil de cordeiro enquanto grande parte de seus habitantes não pode, sequer, comprar remédios contra a malária. “Como vocês que são bons pais poderiam dar aos vossos filhos uma pedra se eles pedem um pão? Prestem atenção! Quando Jesus diz alguma coisa óbvia, Ele quer nos revelar outra coisa”.

O sermão está quase acabando. O papel de Deus como um pai que provê para satisfazer a necessidade dos filhos é uma imagem que, dificilmente, pode passar sem ser observada na Nigéria. No especial The World de 2005, a revista The Economist classificou vários países do mundo com base na qualidade de vida: a Nigéria estava na 108a. posição perto dos últimos três da lista que eram Tanzânia, Haiti e Zimbabwe.  O PIB atual da Nigéria é de 260 bilhões de dólares e deriva, em grande parte, dos ganhos com o petróleo. A renda média per capita é de 1.600 dólares por ano, um grande número é de subempregados, e é de 9% a taxa de inflação. Neste contexto, os homens de Deus se destacam: encarnam a história de sucesso de pessoas ambiciosas e carismáticas provenientes de ambientes comuns, capazes de reunir outros homens e mulheres, de acumular patrimônio sem imposto, casas confortáveis, carros de luxo, privilégios e viagens gratuitas ao exterior. Não é de se estranhar que a doutrina da prosperidade tenha se tornado um produto extremamente rentável.

“Sei que se meu filho me pede um pão, não vou dar uma pedra, mas é preciso estar atento ao que disse o Mestre. Quando vocês pedem pão a Deus, ele pode dar alguma coisa que assemelha a uma pedra, mas não é uma pedra! Em outras palavras, quando vocês recebem o pão pode parecer duro, a vida pode parecer dura, a vida pode parecer impossível. O pão pode parecer que está muito distante. Eu sei que com um trabalho de limpeza é difícil comprar um Mercedes! Imaginem, então, o quando é difícil recolher, cada semana, os 76 seis mil dólares necessários com a doação de 5, 6, 7 mil pessoas abaixo dos 35 anos… é duro! É uma pedra… mas vocês devem aprender a distinguir o pão mesmo quando tem a aparência de uma pedra”.

Quase todos os domingos, os pastores celebram 3 das 4 cerimônias cotidianas. O seus sermões parecem ser escritos para que todos gostem com um bom equilíbrio entre a Bíblia e aquilo que vai garantir que os fiéis voltem a igreja. A maior parte dos cristãos nigerianos vê bem as contradições na vida de seus homens de Deus, mas em troca da disponibilidade de não se voltar contra e não acusar um ungido do Senhor, o rebanho procura perdoar seus pecados e insucessos.

“Não quero que vocês apresentem apenas os pedidos para a vida terrena. Quero que sejam espirituais e que reconheçam que tudo o que é material tem origem no espiritual. Quero que sejam apegados ao pão da vida. Vocês são manager.  E um manager não estão por ai andando de ônibus, Vocês fazem parte do grupo dirigente o ministério do Mestre. Vocês são os seus grandes chefes, os seus conselheiros, e se começarem a caminhar no mundo com Ele do lado, Ele vai fazer de tal modo que vocês vão receber tudo aquilo que precisam”.

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SAIBA MAIS

Divisões religiosas

  •     * Com 170 milhões de habitantes, a Nigéria é o país mais populoso da África. Segundo oPew research center, os 52% dos habitantes são muçulmanos, e 46% são cristãos e 1% segue as religiões tradicionais. No interno da comunidade cristã, os protestantes são mais numerosos: cerca de 60 milhões enquanto os católicos chegam a 20 milhões.
  •    *  Desde a metade deste setembro de 2013, se intensificaram os ataques dos extremistas islâmicos do Boko haran, no nordeste da Nigéria. Em um certo tempo, o objetivo deles eram as comunidades cristãs, agora atacam genericamente as instituições do estado. No dia 28 de setembro, em um novo ataque atribuído ao Boho haran, foram mortos 50 estudantes doYobe State College of Agriculture de Damaturu.

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Guerra de classe

Em 2004, a comissão britânica que controla os entes de beneficência submeteu aos eu controle uma igreja pentecostal nigeriana com sede em Londres, a Kingsway International Christian Centre (Kicc), por suspeitas que seus dirigentes usassem os fundos da igreja de modo ilícito. A investigação começou depois que o chefe da igreja, o pastor Matthew Ashimolowo, foi acusado de ter ficado com 10% dos proventos anuais da igreja, uma cifra de 8,8 milhões de euro.

A resposta da igreja foi: “A menos que a comissão esteja disposta a distanciar a sociedade de fiscalização Kpmg e a levar em conta a cultura da nossa igreja, não temos outra escolha que renunciar ao status de ente de assistência, porque desse modo poderemos cuidar da gestão da nossa igreja sem comprometer os nossos valores cristãos”.

Do momento em que, segundo os dirigentes da igreja, a sociedade de fiscalização  não tinha a intenção de completar rapidamente a sua investigação, a Kcc mudou-se de Londres para Ghana e de lá para Nigéria, deixando para trás um patrimônio no valor de 29 milhões de euro. Pela declaração da Kcc se pode deduzir que os homens de Deus nigerianos pensam de poder fazer aquilo que quiserem com o dinheiro recebido dos fiéis. Na Nigéria não existe uma comissão para fiscalizar entes de beneficência que mantenham vigilância sobre os líderes religiosos e as vozes críticas são caladas pela constante ameaça de desgraças para quem coloca em discussão os representantes da divindade.

Em março de 2005, o pastor Paul Aderafasin, líder da House on the rock church, distribuiu algumas cópias do livro loyalty and disloyalty (lealdade e deslealdade, ndt) a um grupinho de fiéis que, normalmente, se reunia às quintas-feiras na parte da manhã. À primeira vista, o livro parecia inócuo. Tinha sido escrito pelo médico ganês Dag Heward-Mills, chefe de uma comunidade que havia mostrado sinais de desconfiança nele. Heward-Mills chegou à conclusão que uma igreja, para ter sucesso, deve ter sua gestão de modo rígido e hierárquico. A igreja de Heward-Mills, a Lighthouse chapel international, tem sede em mais de 25 países da África, Europa, América do Norte e Austrália.  No seu livro, o ganês elenca os modos para se identificar os rebeldes de uma igreja e denunciá-los. Define o espírito que alimenta os primeiros sinais de rebelião: “o espírito de Lucifer, o espírito que procura substituir e negar a autoridade legítima. Mas isso é impossível. Não se pode substituir Deus. Não se pode vencer a batalha contra o pai. Deus combaterá contra vocês. Toda a natureza, inclusive os corvos selvagens e as águias, combaterão contra vocês”. E conclui a sessão dedicada à identificação dos rebeldes declarando que “a rebelião é como a bruxaria. A punição bíblica para a bruxaria é a pena de morte”.

No livro de Dag Heward-Mills aparecem termos como traidor, revoltoso, amotinado, rebelde, separatista e anárquico refratário. Entre as ações dos rebeldes estão: colocar o líder em discussão, sugerir que possa existir algo de errado, não anotar durante os sermões, não sorrir, não aclamar, não gritar ou não dizer “amém” depois das pregações, não mostrar-se feliz com a sorte e a riqueza de seu reverendo.

O pastor Paul Adefarasin era muito íntimo do seu grupo de fiéis de quinta-feira, que seriam aqueles que iriam se tornar os artífices de sua visão: um templo do milênio, com muitos programas de assistência social e um lugar de culto para receber mais que 7 mil pessoas. O fato dele ter distribuído o livro de Heward-Mills não é raro para uma igreja nigeriana. Ao contrário, é simbólico para o relacionamento entre os pastores das várias igrejas e suas congregações.

Os cristãos evangélicos nigerianos, sobretudo os ambiciosos da faixa dos 30 anos de idade, devem estar sobrecarregados do ponto de vista psicológico. Não devem se perguntar a razão pela qual os homens de Deus na Nigéria continuem a fazer parte de uma elite. Se Deus quer abençoar a todos como fez com o pastor, por que demora tanto? Que possibilidade têm os nigerianos de que aconteça alguma coisa para eles enquanto estão empenhados em pagar as contas dos seus pregadores?

Em abril de 2005, depois de ter lançado uma cruzada evangélica na Nigéria, os pastor norte-americano Benny Hinn teve que abandonar o país. Ficou sem coragem por causa da adoração que existe para com os homens de Deus. O bispo Joseph Olanrewaju Obembe, coordenador nigeriano da cruzada de Hinn, teria dito com sarcasmo: “não seria a primeira vez que Benny Hinn deixa a Nigéria cheio de raiva. Também 15 anos atrás ele foi embora do mesmo jeito. Estava tão ansioso para deixar o país que se contentou de viajar na classe econômica”.

Em 20023, o reverendo Chris Okotie, líder da Household of God, anunciou que Deus havia ordenado que ele se tornasse o presidente da Nigéria. Segundo o The Source Magazine, Okotie pediu dez milhões de nairas (46 mil euros) por cabeça de alguns membros da sua igreja para financiar as suas ambições políticas. Foi derrotado nas urnas e, em seguida, caiu em desgraça porque foi acusado de ter relações extraconjugais. Quando o tabloide City People escrevei que ele tinha presenteado com um apartamento, uma Mercedes,  jóias e milhões de nairas a uma mulher da igreja, Okotie respondeu que estava só ajudando.

Hoje, o reverendo Okotie anda com um comboio formado por três carros, sendo que ele viaja em uma Hummer que foi doada pela Congregação. Em uma entrevista dada ao jornal diário nigeriano This Day, ele declarou: “Eu sei que o reverendo Chris Okotie, no final, vai se tornar o presidente da república federal, porque desse modo os nigerianos poderão ter um suspiro de alívio. Eu sou um nigeriano dotado, cheio de talento, e o povo sabe do que sou capaz de fazer. Ninguém pode se comparar a mim em termos de popularidade e de amor por este país”.

Chris Oyakhilome, da Christ Embassy, é um dos mais famosos líderes pentecostais da Nigéria. Famoso por suas espetaculares cruzadas televisivas e por seus milagres, esteve empenhado na maior parte do ano de 2001 em uma batalha televisiva o reverendo Okotie. A Pentecostal Fellowship of Nigeria procurou, inutilmente, de promover a paz entre os dois, ou ao menos, deixa-los longe da TV. O público não suportava mais as suas brigas. Muitos cristãos consideraram que nenhum dos dois os representavam de modo justo. Muitos não cristãos consideravam que ambos representavam bem os cristãos.

Em 2004, um fiel da igreja de Oyakhilome, caixa do Sheraton Hotels and Towers de Ikeja, um bairro de Lagos, doou milhão de nairas ao pastor. Um fato comum em uma igreja nigeriana, até que desconfiaram que aquele dinheiro podia ter uma proveniência duvidosa. Mas, ainda que se tratasse de dinheiro roubado, a igreja não se sentia na obrigação de restituir ao legítimo dono. Em 2004, a National Broadcasting Comission nigeriana proibiu a publicidade de milagres na TV, uma decisão que provocou danos na igreja de Oyakhilome que era famoso por causa do programa Atmosphere for miracles, uma série de documentários sobre milagres feitos por ele.

As histórias que dizem respeito aos líderes cristãos protestantes são infinitas e sempre mais comuns. Seus seguidores são descritos como estúpidos crentes. A reação deles à manipulação é considerada ingênua, preguiçosa e obtusa. Mas considerando assim, não se leva em conta o modo como os nigerianos cresceram e acostumados a respeitar os ricos e as autoridades. A típica igreja nigeriana é essencialmente um culto à personalidade e seria preciso olhar outras generalizações para procurar as dinâmicas que condicionaram a cultura do país. As questões principais são, provavelmente, o medo e a intimidação.

Dissenso e rebelião

O caso de Deji Thomas ilustra algumas dinâmicas de relacionamento entre pastores e os membros de suas congregações. Thomas é conhecido por ser intransigente  e por dizer como as coisas realmente são e o povo, geralmente, é conquistado por seu temperamento belicoso que induz a todos a serem humildes.

Por 3 anos e meio, Thomas trabalhou como assistente pessoal do pastor Paul Adefarasin da House on the rock church. A sua personalidade, porém, o tornava inábil para o cargo. Os seus protestos eram explícitos, o seu modo de pensar era independente, as suas ideias anticonformistas. Seu pai é um professor universitário que deu para Thomas e seus irmãos uma grande liberdade de expressão, em um período no qual os seus companheiros eram, geralmente, educados para a submissão e para discrição quando se encontrassem diante de figuras importantes.

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SAIBA MAIS

Os mais ricos pregadores nigerianos

David Oyedepo é o chefe da Living Faith World Outreach Center, a maior instituição evangélica africana. Fundou um colégio particular Covenant University. Possui imóveis n exterior, uma editora, quatro jatinhos, e uma escola superior.

Patrimônio estimado: 150 milhões de dólares.

Chris Oyakhilome é o presidente da Believers’ loweworld ministries Inc. Investiu no setor imobiliário e no editorial.

Patrimônio estimado: 50 milhões de dólares.

Tb Joshua dirige a Synagogue, Church of All Nations. É um dos líderes religiosos mais controversos (afirma curar doenças incuráveis), mas também é o mais filantropo.

Patrimônio estimado: 15 milhões de dólares.

Maththew Ashimolowo é o chefe da Kingsway International Christian Centre, a maior igreja pentecostal no Reino Unido. Faz negócios em vários setores, incluindo o editorial.

Patrimônio estimado: 10 milhões de dólares.

Chris Okotie é o líder da Household of God Church. Ex músico pop, acolhe em sua congregaçãoo muita gente do mundo do espetáculo. Foi candidato 3 vezes nas eleições presidenciais.

Patrimônio estimado: 10 milhões de dólares.

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Adefarasin havia assumido sua assistência sem ter tido com ele um colóquio formal. Ao contrário, estava tão ansioso de tê-lo consigo que cancelou os colóquios que havia marcado com outros candidatos. O pastor Adefarasin parecia estar satisfeito com Thomas e com o seu trabalho. Thomas, ao contrário, depois de 3 anos, não aguentava mais. A sua saúde ressentia. Não via a hora de pedir a demissão. Talvez sua aproximação de um homem de Deus nigeriano tenha sido suficiente para ver todas as contradições. Thomas admitia que os homens de igreja são, antes de qualquer coisa, seres humanos. Estava também convicto que os cristãos nigerianos têm necessidade de um Deus visual, no senso literal do termo. Falava de pessoas que estavam dispostas a mentir, corromper, e agredir fisicamente um assistente só para se aproximar de um pregador. A subserviência, a adulação cotidiana, os dons em dinheiro, casas, automóveis, todos não pedidos que não são explicitamente feitos e o livre acesso às doações: tudo é consentido a esses pastores. Seria difícil para qualquer um, naquela posição, não deixar-se corromper.

Thomas se demitiu em janeiro de dez anos atrás. Naquele momento Adefarasin começou uma investigação, baseada num documento de quatro páginas cheio de acusações e escutou diversos testemunhos contra Thomas. Visto que várias outras pessoas se demitiram no mesmo período, Thomas foi acusado de ter sido o causador da “cisão” de uma parte da igreja. A acusação principal era de rebelião. Segundo o pregador, Thomas deveria informar que haviam outras pessoas prontas a se demitirem. Thomas rebateu que não era obrigação dele dar esse tipo de informação.

O interrogatório se deu no escritório do pastor e durou mais de seis horas. A assistir estavam os dirigentes da igreja. No final, Thomas foi declarado culpado e o pastor fez um ato simbólico de lavar as mãos em uma bacia cheia de água. Para punir a sua suposta rebelião, Thomas foi proibido de assistir as cerimônias celebradas nas várias sedes do mundo da House on the rock church.

Thomas conta que o pastor Paul continuava a repetir uma ameaça que ele havia escutado outras vezes no passado: nenhum daqueles que abandonaram a House on the rock churh tem sucesso. Aquela afirmação influenciou a ele e a sua mulher Bukola: “ficávamos em pânico quando acontecia alguma coisa pequena como furar o pneu do carro ou ficar doente. Conseguimos sair daquele clima de terror no qual vivíamos quando entendemos que nossas vidas não estavam nas mãos de ninguém, mas só nas mãos de Deus”. Deji Thomas e o pastor Adefarasin romperam o relacionamento e explodiu uma guerra que destruiu a amizade e os laços familiares.  Parecia que o pastor tinha seguido literalmente a recomendação contida no livro de Heward-Mills.

A cidade de Lagos se desenvolveu ao longo de 15 quilômetros da Lekki-Epe Expressway, uma grande artéria de tráfico. Este desenvolvimento representa bem os movimentos do dinheiro na Nigéria: propriedades imobiliárias, outlet e complexos de escritórios são a manifestação física de fusão e aquisição do setor de petróleo e de gás. Centros comerciais, fast food, escolas particulares, campus universitários  e aquele que é, talvez, o primeiro cemitério privado da África. É possível percorrer os 15 quilômetros num tempo razoável de 20 minutos, durante os quais se passa diante de ao menos 50 igrejas. Algumas geram proventos de milhões de nairas todas as semanas.

A Nigéria é um dos países mais religiosos do mundo. Todos os domingos, milhões de pessoas vão à igreja. Todas as sextas-feiras, metade do país se fecha para observar o dia santo do Islam. Mas a Nigéria é também o segundo país mais corrupto do mundo segundo a Transparency International, uma ONG que opera como observatório da corrupçao.

Muitos cristãos não parecem preocupados com o fato de que as igrejas sejam protótipos do sistema nigeriano e não pensam que a existência de um plano que faz com que poucos indivíduos se tornem ricos através da contribuições de muitos sejam um problema. Estão convencidos de que se um cristão inteligente sofre muita pressão, acabará por afirmar o seu direito de venerar Deus individualmente. E que se as manipulações dos homens de Deus não provocam danos duradouros.

Mas é difícil prever qual a direção vai tomar a igreja, sobretudo se seus líderes continuarem a guiá-la na direção egocêntrica, como para “viver o sonho americano” dos últimos 20 anos. Até quando os nigerianos permanecerem cronicamente supersticiosos, até quando a economia continuar vacilando, e a igreja continuar sendo um “bom negócio”, continuarão a ver os superstar, os homens de Deus, que encarnam a essência dos seus desejos. Não apenas aquele de prosperar, mas também aquele de fazer uma bela vida, não pelos próprios méritos, mas por uma graça recebida.

Porque na medida em que os homens de Deus continuarão a prometer aos seus fiéis que serão líderes em seus ambientes, que poderão viver muito bem, casar-se  e gozar de boa saúde, então eles estarão satisfazendo todos os parâmetros para obter a fé dos nigerianos. A esse ponto, quem terá necessidade do Deus da Bíblia, com os suas fortes e sólidas exigências, com suas promessas de que se sofre processos e tribulações, cruzes e percursos de arrependimento? Quem vai querer esse Deus?

A autora

Yemisi Ogbe é uma escritora nigeriana.

Ela tem um blog: Long throat Memoirs

www.internazionale.it

Rafael Vieira, 7.10.2013