LI, VI, OUVI, ESCREVI

“PULSEIRAS VERMELHAS” VAI TRIUNFAR

Uma minissérie de TV italiana que, provavelmente, jamais irá passar no Brasil. A ambientação e o tema, no entanto, são universais. Em qualquer lugar do mundo esse tipo de história pode ter bastante sentido: um hospital pediátrico onde crianças e adolescentes com doenças gravíssimas ou em estado terminal conversam, jogam, se divertem e choram. Temas delicados da existência humana são colocados em baila: vida, coragem, dor, proteção, desamparo, amizade, amor, esperança, solidariedade, luz e trevas. O episódio apresentado no domingo passado, 17 de fevereiro, foi absolutamente comovente. Encontrei um comentário sobre a minissérie feito por uma jornalista da revista “L’espresso”que merece uma leitura. Essa experiência que pode se aplicar a Italia, aplica-se também ao Brasil. Esta aí, pra você!

Opinião

Denise Pardo

Espresso 21.02.2014

Foi uma operação muito arriscada. Em relação ao tema, hora e dia selecionado. Mas na Itália, um país desajeitado e traidor com uma política sem coração e certamente doente, a série pode marcar como a história de um país diferente. É um sucesso na TV a série “Pulseiras Vermelhas” em que nem todo mundo teria apostado para ser apresentada nas noites de domingo, que são destinadas a um grande número de digressões e esportes.

ITALIANOS – “Pulseiras” nasceu como um desdobramento da série “Polseres Vermelles” apresentada na Espanha. Ambientada em um hospital pediátrico onde os adolescentes lutam para sobreviver e tem a voz narrativa de uma criança em coma. Embora a vida, o caráter e a linguagem real dos meninos invadindo o cotidiano da doença e seu tratamento cruel, de alguma forma minimizando-as, é uma mistura emocionalmente explosiva, apesar da fé cega de Eleonora Andreatta, diretor da Rai Fiction (que queria a série, a todo o custo) está sendo realmente um sucesso inesperado.

HIT PARADE – Enquanto isso, o livro homônimo do espanhol Albert Espinosa está no topo do ranking de best-sellers. A ficção da RaiUno está indo tão bem que  que os telespectadores aumentam de episódio em episódio e último superou a marca de seis milhões. Na pressa e na fúria, a produção teve de imprimir 25 mil novas pulseiras vermelhas para serem enviados aos escritórios regionais da TV para atender as necessidades – as pessoas dizem: “Eu gostaria de ter uma também”, – sem dizer que chegam pedidos aos milhares por email. No Facebook, a história é seguida por 121.347 amigos e 48.293 debatem sobre o programa.

DO LADO POSITIVO – Aparece o lado bom do país, finalmente, e em sua maior parte jovens, entre 14 e 34 anos, idosos e, portanto, gente mais sensível do que se poderia esperar. Com “Pulseiras Vermelhas”, de repente, se materializou uma Itália silenciosa que está interessado refletir sobre a dor profunda. Aparece o sinal de uma geração que não vira a cabeça para o outro lado e que, com milhares de tweets e retweets, mostra como na web, além do que se vê nas primeiras páginas dos jornais, também é uma geração solidaria e interessado em participar. Uma identidade explodiu em grandes números como é o caso de outros fenômenos culturais e isso é positivo e emblemático, talvez um ponto de virada, após tantos anos de vedetismo e de triunfo efêmero da imagem.

ALTERAÇÃO – Na verdade, não é uma Itália que a mídia mostra com grande alarde. Mas se isso é verdade, como sempre dissemos que Rai antecipa mudanças culturais na sociedade, talvez “Pulseiras” pode representar o farol com provas circunstanciais de uma “mudança de direção”. Até mesmo o grande comunicador do momento Matteo Renzi (novo Primeiro Ministro italiano, ndt) ouviu e gostou o tema, que ele – dizia-se – é o emblema da alegria de viver, de sucesso, de ser um vencedor, na moda, inteligente.

MATEO – Em Florença, em sua despedida como prefeito, ficou emocionado apenas uma vez quando lembrou Lorenzo Guarnieri, um menino que morreu em um acidente de carro e a campanha feita com a família para defender maior segurança nas estradas: “Esta será a única coisa que vou levar de mais forte no meu coração”, disse Renzi. “Fazer política também é dar tudo de você e tentar dar respostas para aqueles que vivem na dor”. Atrás de “Pulseiras” há também este fato e espero que ajude um pouco a curar a dor do nosso país.

(Texto e foto da versao online da revista)

http://espresso.repubblica.it

Rafael Vieira, 21.2.2014