EDITORIAL

QUARENTENA

Muitas pessoas, pelo mundo afora, estão em quarentena ou porque contraíram o novo coronavírus e sofrem com os sintomas da Covid-19 ou, justamente, estão fechadas em casa justamente para evitar se contaminar em ambientes onde as pessoas estão circulando. Todas merecem nosso apoio, nossa oração e, principalmente, a nossa atenção. Há um processo psicológico muito comum entre os “quarentenados”: o início é animado e cheio de propósitos; em seguida chega um certo vazio e, em muitos casos, chega um cansaço, uma exaustão de tal modo que a cabeça fica cheia de “minhocas” e as pessoas podem perder a paz.

Pode ser  algo parecido com o que acontece com Jesus, no deserto, depois de uma “quarentena”. Chegou a hora da necessidade, da dúvida, das tentações. Vale a pena considerar aquela situação-símbolo vivida por Jesus e o seu incrível diálogo com o Diabo. É a cena típica dos “quarentenados” no fim de suas forças e a chegada insidiosa da cabeça que quer soluções fáceis e encher a vida da pessoa de julgamentos perigosos. Tudo, nessa hora, precisa ser refletido com mais profundidade. E não ir pro bate-boca tão ao gosto do Capeta que só sabe mentir, confundir e enganar. É hora de reafirmar a esperança e a fé e botar o Maligno para correr por meio de uma declaração amorosa que há apenas um Deus e só a ele devemos servir.

Acho que um antídoto para que o processo psicológico venha se deteriorar seja a atenção sincera e gratuita. Quando o “quarentenado” sente que, de algum modo, é valorizado por seus amigos, principalmente pelos que vivem no mesmo espaço, ele acaba se preservando mais. O problema é quando essa atenção passa a ser sentida como um peso, uma obrigação, uma tarefa nada espontânea. Aí a pessoa pode abrir espaço no coração e na mente para querer avaliar toda a vida sob a perspectiva do sentimento atual. As coisas se complicam e as pessoas podem cometer injustiças exatamente com aquelas pessoas que “carregam a cruz” de cuidar delas num momento tão complicado.

A “quarentena” como prevenção, sem prazo marcado para terminar, pode ser potencialmente uma fonte de angústia. É preciso não deixar que os cuidados indispensáveis venham se tornar a jaula de uma gaiola fria e sem humanidade. Nesse sentido, creio, que é importante se permitir fazer coisas que não representam perigo para si mesmas e nem para os outros e que, muitas vezes, não são feitas por uma espécie de paranóia de que o vírus está em todo lugar. Com todo respeito, o vírus não está em todo lugar. E onde ele está você pode borrifar uma talagada de álcool apropriado na cara dele nas superfícies, além de evitar levar a mão à boca, ao nariz e ao rosto e lavar as mãos com água e sabão. Pode-se andar na frente de casa. Pode-se andar dentro de casa. Pode-se respirar perto das árvores.