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RAFAPEDIA – Uma enciclopédia Livre – A e B

A

ALEGRIA. Gosto muito de um dos seus melhores sinônimos: gozo. Desconfio que essa percepção da alegria traz um certo embaraço para quem insiste em manter, a qualquer custo, a herança da moral católica que associa gozo a sexo e sexo ao pecado. Pena. Nos inícios da década de 1990, quando comecei o Mestrado em Teologia Moral, em Roma, soube que uma aluna do nosso Instituto Superior, ligado à Pontifícia Universidade Lateranense, tinha feito uma Tese de Doutoramento com o título: “O orgasmo como experiência mística”. Fiquei encabulado com a coragem e a beleza do tema. Tentei, em vão, conferir se a informação tinha procedência e a resgatar esse trabalho. Tinha vontade de divulgar um escrito sério e fundamentado sobre o tema. Me disseram, inclusive, que a defesa da Tese criou um certo reboliço. E não era para menos.

AMIZADE. Um dos filósofos mais discutidos do século passado, Friedrich Nietzsche, dizia que a um amigo deve ser mestre tanto na arte de adivinhar como na de permanecer calado. Eu tenho certo fascínio por ateus sinceros, aqueles que buscam a razão última das coisas ainda que isso lhe custe a reputação. Uma fé constituída, com respostas prontas sobre tudo pode se tornar cômodo e uma bela desculpa para não se refletir de maneira visceral sobre o que existe em nós e em nossa volta. Gosto do Nietzsche, apesar de confessar ter dificuldade de ler suas loucuras, mas adquiri sua obra completa em versão econômica, em italiano. Um dia, se Deus permitir, revisito tudo aquilo. A arte de adivinhar e a arte de ficar calado formam a beleza de toda amizade que realmente vale a pena conservar por uma vida inteira. Eu tenho grandes amigos, os melhores do mundo.

AMOR. Uma única palavra reúne nela mesma tudo o que se pode imaginar existir de bom nessa vida. Ainda que existam controvérsias em torno do seu significado, dividindo grupos apaixonados formado tanto pelos que acham que se trata apenas de uma expressão vaga até aqueles que dão à palavra um conteúdo místico, religioso. Eu faço parte dos últimos. Creio no amor, mais do que em qualquer outra realidade. Aceito, sem escrúpulos teológicos, que se trata do Deus da minha fé. Acredito em sua força inspiradora que me empurra para o lado bom da existência, que me faz sonhar, transcender o que os meus olhos são capazes de capturar. Creio em sua força restauradora e curativa que me sustenta em cada passo dado, em cada dia vivido. No fim das contas, para mim, o amor é a única e completa vocação humana. Nascemos apenas para isso: amar e ser amado.

B

BELEZA. Nunca gostei de olhar no espelho. Sou filho de uma cultura na qual se ensina que a beleza respeita padrões estabelecidos. E, por isso, apesar de nunca terem me explicado porque a simetria do corpo, os dentes alvos, os músculos salientes, a pele limpa, o cabelo liso e tantas outras características formam o que se pode chamar de um homem bonito, eu sempre tive a certeza que sou feio. Muito feio. A vida inteira. Aliás, talvez tenha sido ainda mais feio quando jovem porque nessa altura da minha vida já me dão o desconto da idade e a feiura já tem fundamentos perdoáveis. Mas, ao longo do caminho, houve uma sofisticação no conceito de beleza que me machucava ainda mais: a beleza interior. Quando alguém me dizia que eu era bonito por dentro, eu não conseguia absorver a força do elogio e só me dava mais raiva do espelho porque essa pessoa dizendo que eu era feio por fora.

BEM. Há muitos anos, tive a felicidade de iniciar um trabalho de evangelização com comunidades portuguesas na Suíça e na Califórnia. Entre as primeiras estava os imigrantes do chamado Portugal continental e entre as comunidades dos Estados Unidos prevalecia a presença de oriundos do arquipélago dos Açores. Com todas essas pessoas, criei um programa de rádio que se chamava “Horizontes” e ficou no ar por uma década. Depois disso, a amizade com as famílias portuguesas me levou a sonhar com a criação de um grupo que ajudasse as pessoas a conhecerem as entidades que realmente pratiquem o bem com lisura, eficácia e simplicidade. Neste ano de 2018, se Deus quiser, vamos iniciar um trabalho na internet com o “Instituto Horizontes do Bem”.  Esta plataforma vai identificar trabalhos de ajuda e divulgar o modo de colaborar com elas.

BRILHO. Nesses tempos de cultura de celebridade quando todo mundo quer brilhar, é bom lembrar que o caminho cristão admite e reconhece que devemos brilhar. Todas as pessoas nasceram para ser luz nesse mundo. Ninguém pode se conformar em viver apagado, opaco, quieto num canto. Somos vocacionados a fazer a diferença, a transformar a realidade da vida e o coração das pessoas. Isso só é possível se formos portadores de luz. O perigo do brilho vazio da fama que aprisiona, cega, insensibiliza e torna a pessoa muito infeliz nos aconselha, entretanto, a lembrar das palavras de Jesus que ensinava que a única razão do nosso brilho são as boas obras que fazemos de modo que despertemos o louvor no coração das pessoas. Não um louvor a nós que estamos diante delas, mas ao Pai que está nos céus. Brilhar pelo bem realizado: este é o caminho que nos aguarda neste 2018.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

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