Sem categoria

RAFAPEDIA – Uma enciclopédia livre – C e D

C

CARISMA. Esta palavra e suas derivações são altamente invocadas em nossos dias e, poucas vezes, aprofundada. Há uma confusão muito comum nivela na rasura o sentido dos termos. Por exemplo, quando carismáticos passam a ser apenas alguns membros da Igreja. Carismático não quer dizer ser capaz de rezar com os olhos fechados, cantar muito e denunciar ao bispo as posturas de clérigos relapsos nas paróquias. Ainda que tudo faça muito sentido e tenha sua importância dentro de um quadro de valores no qual se busque maior fidelidade ao Evangelho, ser carismático, no meu entendimento, é o mesmo que aceitar, com simplicidade, os dons do Espírito Santo, os carismas, e fazer uso deles para o bem das pessoas, na comunidade. De algum modo, acho que se pode dizer que todo mundo tem algum carisma, que todo mundo é carismático, uma vez que o Espírito não desampara nenhum de nós.

CORAGEM. Composta por ele e Pedro Guerra, Lenine canta uma música linda com a belíssima mexicana nascida na Califórnia, Juliana Venegas. O título da canção é “miedo” e a letra disseca a mente e o coração daqueles que expulsaram a coragem de suas vidas, O trecho muito contundente diz assim: “medo de morrer na praia depois de beber o mar”. Como eles repetem, no refrão da eu tenho medo até do medo que tenho, mas leio a sentido da coragem como uma realidade às avessas daquela cantada por essa dupla. Coragem é perseverar até o fim, o resto é heroísmo passageiro. Os mártires são corajosos? Sim, porque perseveraram. Talvez tivessem medo. Coragem não é ausência de medo, é seguir em frente mesmo quando ele provoca calafrios na espinha. Coragem é encarnar a certeza de que a direção que se caminha é segura, é certa. E que venham os medos!

CUIDADO. Uma senhora que conheci na infância, quando vivia na terra onde nasci, tornou-se uma psicóloga famosa no Canadá e escreveu três livros que ganharam várias traduções. Um deles foi lançado no Brasil pela Editora Vozes e tem o título de “Encontro comigo mesmo”. Nesse livro, aprendi, com muita alegria, o que entendo por cuidado. Na introdução, Micheline Lacasse fala que somos jardineiros e que o jardim somos nós mesmos. Precisamos aprender a arte dominada por esse missionário das pequenas coisas. Ele se envolve com cada detalhe. Olha planta por planta, flor por flor, broto por broto. Ele conhece a necessidade de suas roseiras, de suas bromélias, de suas margaridas. Ele é um verdadeiro cuidador. Levado para a realidade humana, o cuidado do jardineiro torna-se um belo guia de como cada pessoa deve se cuidar e como deve cuidar dos outros.

D

DESEJO. Estudei pouco, mas sei que esse é um dos grandes temas do Freud. Do que eu consegui aprender, penso que se trata do motor que move a vida. Um psicanalista doido que fez muito sucesso no Brasil quando eu era jovem tinha o mesmo nome de um político que ainda atua no cenário brasileiro, Roberto Freire. Um dos livros mais famosos dele me ganhou pelo título: “sem tesão, não há solução”. A exposição que ele faz no texto não é despojada como insinua o título, mas a tese enunciada pela frase meio escandalosa para época é uma verdade que eu defendo com unhas e dentes na minha vida e no meu trabalho. Sem desejo, fico tudo flácido, tudo frouxo, tudo sem graça. É o desejo que nos mantém atentos, curiosos, despertos. Eu desejo um mundo melhor e a felicidade para todos. É isso: se é para desejar, já desejo tudo de uma só vez.

DIGNIDADE. Se se tratar da humana, dignidade é o valor que cada pessoa tem só por ser quem ela é. Não interessa o que ela possui, as relações que estabeleceu na vida, o que ela significa na contabilidade da produção do mundo. Dignidade é o valor sagrado que uma pessoa tem por si mesma. Num de seus mais recentes textos, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, falecido em 2015 por causa de um câncer de pulmão, deixou-nos uma fantástica afirmação: “Que as nossas almas sigam irmanadas na utopia de um mundo cuja maior loucura seja a dignidade de todos os homens”. Ele chama de loucura para incentivar os jovens, os rebeldes, os inconformados a cultivá-la. Galeano era um sonhador, ainda que um sério observador da realidade e um combatente incansável das injustiças, especialmente na América Latina. Era um poeta, um homem digno.

DISCRIÇÃO. Algo completamente fora de moda. Em nossas praças, ruas, shoppings, igrejas e praias sobressaem os exibidos. Em um desses vídeos virais em redes sociais de um tempo atrás que acabou influenciando afirmações de heterossexuais, uma transformista cearense conhecida pelo singelo nome de Natasha Martory, dizia: “põe a cara no sol”.  É esse bordão dos nossos dias e ele pode simbolizar o funeral da discrição. Ainda assim, há quem resista a essa grande onda. Os discretos costumam ser elegantes. A discrição dá um ar de mistério a quem a pratica, um certo charme e, claro, no mundo das ostentações, acaba por gerar curiosidade. Discrição rima mais com observação, discernimento, silêncio, consciência da própria estatura, sabedoria em se comportar no meio do salão cheio de gente louca, o tempo inteiro, para se tornar celebridades a qualquer custo.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

CRÍTICAS E SUGESÕES

[email protected]