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RAFAPEDIA – Uma enciclopedia livre – E e F

E

ELEGÂNCIA. Um amigo padre que sabe, como poucos, dominar a linguagem figurada, me disse um dia: “quando a gente chegar no céu, Deus vai perguntar apenas três coisas. Vai perguntar se amamos, se fomos felizes e se fomos elegantes”. Achei intrigante, mas guardei comigo aquela explicação incomum. Depois, em situações mais sérias, alcancei o sentido da brincadeira daquele meu amigo. Ser elegante, no sentido que ele dava tem a ver com espiritualidade. Envolve o pensar e o agir. Elegante é alguém que assume aquilo que temos de mais sagrado: a nossa singularidade. Ser elegante é o mesmo que ser simples, natural e espontâneo. É vestir as roupas da sinceridade que caem bem num corpo honesto. É agir com humanidade e carinho mesmo quando tudo parece chamar à feiura, à guerra e ao combate incessante.

EMPATIA. Na primeira metade do século passado, o escritor argelino Alberto Camus chegou à capital da França onde todos as pessoas que eram intelectualmente consideradas faziam roda em torno do existencialista Jean Paul Sartre. Camus sentiu, inicialmente, grande empatia por aquele pessoal. Muito rapidamente, no entanto, ele entendeu que tinha amarrado o jumento no pau errado e se sentiu como um cachorro perseguido por outros cachorros. Houve desavenças. Pululavam as críticas. Apareceram as graves incompreensões. A hora da traição chegou e as acusações mútuas ganharam espaço. O caldo entornou. Empatia, na verdade, expressa as condições de chegada. Um sacerdote idoso que conheci na América do Norte, depois de ouvir uma senhora me elogiar, dentro da sacristia, após uma celebração da eucaristia, saiu-se com essa “no começo, todos são bons! ”. Ele não se “empatizou” comigo.

EMPODERAMENTO. Está na moda falar desse tema. Todos os esforços políticos de grupos considerados oprimidos históricos são interpretados como empoderamento. Mulheres, negros, gays estão se empoderando. Na verdade, estão tomando na mão o que lhes foram tomados, o direito de serem quem são. E de serem respeitados e valorizados. O poder, nesse sentido, está ligado à dignidade única de cada pessoa. Se esse poder é diminuído, subtraído, sufocado, o reestabelecimento dele se torna motivo de luta. Gosto de registrar a lembrança da obra do educador brasileiro Paulo Freire. Ele e sua obra empoderaram pessoas. E ele entendia esse milagre tanto como um processo quanto como um resultado. Para ele, o empoderamento de alguém está presente quando a educação aumenta a sua capacidade de pensar criticamente e de agir com autonomia.

F

. Um professor protestante de Crítica Bíblica que viveu na Escócia e é bem visto pelos bispos da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, William Barclay, dizia algo muito interessante sobre o que significa ter e vivenciar a fé, sem a qual não pode acontecer nada. Ele lembra a passagem na qual Jesus diz que quem tem fé seria capaz de “transportar montanhas”: “Jesus jamais teve a intenção de que se tomassem suas palavras em sentido literal. Depois de tudo, o homem comum quase nunca sente a necessidade de arrancar uma montanha física. O que quis dizer foi o seguinte: ‘Se tiverem a suficiente medida de fé, podem resolver todas as dificuldades, e se pode cumprir até a tarefa mais árdua’”. Uso o a literatura bíblica de Barclay nos meus estudos atualmente, em Brasília. Os comentários dele feitos a respeito dos quatro evangelhos encontram-se disponíveis na internet, em português.

FIDELIDADE. Fico triste quando vejo que a fidelidade, no âmbito das relações, tem sido vista com desconfiança por muitas pessoas. Parece que ser fiel é o mesmo que estar amarrado, cativo, escravizado a alguém ou alguma coisa. Há quem prefira até dizer que é leal a dizer que é fiel por causa dessa desconfiança. Penso que esse mal-estar pode ter a ver com a ideia de que somos obrigados a ser fiéis. Uma fidelidade por obrigação precisa mudar de nome. A fidelidade verdadeira brota da alegria de ter abraçado a melhor coisa da vida e, por isso, é sempre prazerosa e realizadora. Tomo uma situação bem banal, para não complicar. Sou flamenguista fiel. Não me incomoda que alguém venha me dizer que o time é isso ou aquilo do rubro negro, eu só digo: “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”.

FUTURO. O futuro que eu aprendi a esperar, já chegou. Vivo no futuro. Me pego todos os dias tentando compará-lo com o passado. Passo por uma crise, uma angústia imensa com certas realidades desse tempo futurista. As redes sociais, por exemplo. Achava que no futuro, iríamos ter ferramentas poderosas que me dariam a possibilidade de conversar, sem gastar muito, com meus amigos que moram no Canadá sem ter que escrever cartas que levariam semanas para subir e descer a América. As redes sociais me deixam falar com o pessoal lá de Vancouver, de Baldwin, de Sherbrooke com muita facilidade, várias vezes ao dia, se tivéssemos tempo para isso. Mas, quando abro a minha timeline, ao invés dessa linda possibilidade que o futuro me reservou me mostrar o jardim da Nancy, o trabalho do Daniel ou o gato da Mônica, me mostra gente que chama a CNBB de comunista, os bispos de petistas e eu fico triste. Triste porque a beleza foi engolida pela mentira e pelo ódio.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

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