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RAFAPEDIA – Uma enciclopédia livre – I e J

I

INOCÊNCIA. Há dois importantes elementos do conceito de inocência que nos alcança nos dias de hoje: o estado que precisamos almejar para achar o caminho de Cristo e a presunção a que todos têm direito – dado por Deus e pela lei – de não sermos considerado culpado antes que nossos erros e crimes sejam devidamente comprovados. O primeiro: Jesus elegeu os inocentes como modelos de quem entra no Reino dos céus. Isso significa que é preciso nascer de novo, retirar as maldades do coração, não ceder à tentação de julgar e ocupar-se com a própria retidão ao invés de ficar apontando o dedo para os erros dos outros. O segundo: não se pode aceitar como odor de honestidade a atitude de alguém que vocifera contra as pessoas sobre as quais pesam acusações de erros cometidos. Não se pode, creio eu, continuar aplaudindo quem deixa sair fogo pelas ventas para condenar os outros sem saber exatamente que aconteceu. Parece até que condenar é o primeiro passo de um processo e, na verdade, é o último.

INTEGRIDADE. Eu tenho 55 anos. Talvez seja por isso que continuo apreciando a poesia cantada pela banda Capital Inicial. O vocalista, Fernando de Ouro Preto ou Dinho, apesar de ainda poder fazer shows sem camisa, nasceu 14 meses depois de mim e completou 54 anos no mês passado. O Capital Inicial tem um sucesso, ou um “hit” como costumam dizer, que sempre fez pensar sobre o que seja integridade.  A música é “Quatro vezes você” e o refrão diz o seguinte: “O que você faz quando ninguém te vê fazendo ou o que você queria fazer se ninguém pudesse te ver”. Se a resposta a essa pergunta se distancia demais da nossa realidade do dia a dia, não estamos inteiros. A integridade dá fundamento à ética pessoal. Ser íntegro é pensar e agir de acordo com o que se acredita. As forças que gravitam ao nosso redor nos despedaçam, nos fragmentam. É preciso , todo dia, se recompor, se tornar íntegro, se reinventar.

INOVAÇÃO. Não existe uma roda de conversa que se forma em torno de empreendimentos de várias naturezas, hoje em dia, que a palavra inovação não roube a cena. Todo mundo quer inovar e isso parece moderno, bacana. E, de fato, pode ser mesmo. O problema é que se convencionou achar que tudo que é inovador é positivo e necessário. Literalmente, inovar é fazer algo que não era feito antes. Costumamos tomar o café da manhã, sentados numa cadeira em torno de uma mesa. Seria, por assim dizer, “inovador”, dispensar a cadeira e tomar café plantando bananeiras. Brinco para colocar a questão num lugar difícil. Acho que é necessário fazer isso hoje em dia para se atemuar o culto à inovação e resgatar a importância de certas conquistas adquirida pela humanidade em séculos de caminhada. Certas práticas, inclusive de natureza comercial, foram aprendidas por meio de muito esforço e funcionam sempre. Os inovadores, às vezes, se esquecem disso e começam a inventar a pólvora. De novo.

J

JÚBILO. Sou flamenguista e esta é uma informação relevante para se tratar do sentido do júbilo. Me acostumei, quando jovem a frequentar estádios de futebol. Passei dos 14 aos 25 anos da minha vida em Goiânia, Goiás. Lá tem uma arena esportiva escandalosamente bonita chamada Serra Dourada. Eu me lembro, que todos os anos, quando se se divulgava a tabela do campeonato brasileiro, que tinha outro nome na época, eu ia direto ver se meu rubro-negro jogaria no nosso estádio e quando encontrava registrado que ele iria aparecer por lá, eu me enchia de verdadeiro júbilo. É o mesmo que alegria, mas só que levada ao extremo.

JOVIALIDADE. Se se tratar da humana, dignidade é o valor que cada pessoa tem só por ser quem ela é. Não interessa o que ela possui, as relações que estabeleceu na vida, o que ela significa na contabilidade da produção do mundo. Dignidade é o valor sagrado que uma pessoa tem por si mesma. Num de seus mais recentes textos, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, falecido em 2015 por causa de um câncer de pulmão, deixou-nos uma fantástica afirmação: “Que as nossas almas sigam irmanadas na utopia de um mundo cuja maior loucura seja a dignidade de todos os homens”. Ele chama de loucura para incentivar os jovens, os rebeldes, os inconformados a cultivá-la. Galeano era um sonhador, ainda que um sério observador da realidade e um combatente incansável das injustiças, especialmente na América Latina. Era um poeta, um homem digno.

JUSTIÇA. Algo completamente fora de moda. Em nossas praças, ruas, shoppings, igrejas e praias sobressaem os exibidos. Em um desses vídeos virais em redes sociais de um tempo atrás que acabou influenciando afirmações de heterossexuais, uma transformista cearense conhecida pelo singelo nome de Natasha Martory, dizia: “põe a cara no sol”.  É esse bordão dos nossos dias e ele pode simbolizar o funeral da discrição. Ainda assim, há quem resista a essa grande onda. Os discretos costumam ser elegantes. A discrição dá um ar de mistério a quem a pratica, um certo charme e, claro, no mundo das ostentações, acaba por gerar curiosidade. Discrição rima mais com observação, discernimento, silêncio, consciência da própria estatura, sabedoria em se comportar no meio do salão cheio de gente louca, o tempo inteiro, para se tornar celebridades a qualquer custo.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

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