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RAFAPEDIA – Uma enciclopédia livre – K e L

K

KARAOKÊ. Eu sempre sonhei em cantar. Tenho um ouvido de lata, esqueço todas as letras e não tenho a mínima afinação. Resultado: nunca poderei me apresentar para os amigos e interpretar uma linda canção como aquelas dos meus sonhos do tempo de garoto. Me apresentaram, há muito tempo atrás, uma engenhoca eletrônica que mistura grafismos, áudio e imagem contando com entradas para microfones e que poderiam fazer um milagre e retirar o meu trauma de cantor frustrado. O nome disso é karaokê. Tinha de ser uma invenção japonesa. Nossos irmãos da terra do sol nascente sabem das coisas. Adianto: não funcionou para mim. Tentei, várias vezes, e não consegui acompanhar as letrinhas que aparecem na tela, mas já fez muita gente que eu conheço achar que é o James Blunt ou a Shakira. E nisso o karaokê é uma verdadeira bênção, pois realiza sonhos, faz com a que pessoa se sinta bem, ainda que não tenha aplausos no final.

KARMA. Muita gente tem medo de valorizar aspectos de outras religiões por parecer que estão sendo infiéis ao cristianismo. Bobagem. Nossa religião tem a marca da abertura definida pelo próprio fundador. Jesus, ao ser indagado sobre o bem realizado por quem não era da sua turma, respondeu sem ambiguidade: “quem não é contra nós está a nosso favor” (Mc 9, 40). O termo “Karma”, de forma bem ampla, deriva do sânscrito e surgiu associada ao Budismo e ao Hinduísmo, grandes e bonitas religiões orientais. Em poucas palavras quer dizer a energia gerada por ações de uma vida que se reflete em outras vidas. Nós não acreditamos na reencarnação e, por isso, essa história só nos serve para algo bem da vida aqui e agora: pagamos pelos erros que cometemos. Isso é entendimento cristão. Portanto, se alguém vem com essa conversa de karma para o nosso lado, respeitosamente, podemos traduzir para o nosso modo de ver e acolher o dom da vida. Não podemos ser irresponsáveis achando que nossos atos não têm consequências, pois tem. Não em outra vida, mas aqui e agora.

KIWI. Um fruto esquisito: peludo, verde e cheio de sementes pretas. É gostoso. Lembro-me do tempo que tive a oportunidade de morar na Itália lá pelos inícios dos anos de 1990. Século passado, não é? Estou ficando velho. Naquela época, na cesta de frutas da Casa Geral dos Redentoristas, apareciam sempre os frutos verdes. Uma vez perguntei se lá se cultivavam o Kiwi. Me responderam que eles eram, simplesmente, os maiores produtores de kiwi do mundo. Depois deles vinham Nova Zelândia, Chile, França, Grécia, Japão e Estados Unidos. A China, coitada, terra de origem do Kiwi não conseguia emplacar a produção da fruta. Naquela época produziam pouco e a situação perdura até os nossos dias. Parece que os chineses não vão com a cara da fruta que apresentaram para o mundo. É a confirmação da conhecida máxima que nos recorda que “santo de casa não faz milagre”. Eu tenho pressão alta diagnosticada desde 2003 e dizem que o kiwi ajuda a controlar a pressão. Eu como, sempre que posso, mesmo não morrendo de amores.

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LIBERDADE. O padre e teólogo belga José Comblin nasceu em Bruxelas, na Bélgica e viveu muitos anos no Brasil. Faleceu em 2011, na Bahia. Ele escreveu um dos livros que eu volto a ler que sempre que posso. O título do livro é “Vocação para a liberdade”. A leitura desse trabalho do P. Conblin me tirou da cabeça um dos mitos mais comuns do mundo: quase todo mundo pensa que nascemos livres. Aliás, esta é o primeiro artigo da Declaração Mundial dos Direitos Humanos, publicada em 1948 pela Organização das Nações Unidas: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. P. Conblin tirou isso da minha cabeça. Ele diz, nesse livro que citei, que nascemos escravos de uma porção de coisas e, no correr da vida, podemos nos tornar livres. Somos chamados à liberdade. Convidados, vocacionados à liberdade. Podemos avançar ou regredir quando o assunto é liberdade. Gosto disso. Creio nisso.

LEALDADE. Há quem prefira lealdade à fidelidade. Um amigo meu, um jornalista que gosta de aventuras radicais e vive sumindo nas florestas do Brasil, sempre tenta me dizer que é mais importante ser leal do que ser fiel. Entendo que ele se refere mais especificamente à fidelidade conjugal. E claro que estou sempre me municiando de argumentos para defender a fidelidade, mas devo confessar que ele não está completamente desprovido de razão quando exalta a lealdade e chego a entender que uma coisa não fere a outra, se for bem assimilada. A fidelidade é um convite à adesão total, a lealdade é a possibilidade de poder continuar fiel mesmo quando a pessoa derrapa nessa busca. Nesse sentido, eu sempre digo isso àquele doido, que uma coisa ajuda a outra. Sendo leal, é mais fácil ser fiel. Ou mais ainda: para ser fiel, é preciso ser fiel.

LONGEVIDADE. Viver muito só é bom se for para viver bem. Vejo que há uma indústria muito poderosa do mundo de hoje voltada para garantir que nossa vida seja longa e, de fato, as estatísticas mostram que a humanidade inteira está propensa a viver cada vez mais. É uma boa notícia, mas essa novidade merece reflexão. Um dia, numa visita ao hospital, uma senhora de olhar bondoso e sorriso largo me disse: “padre, será que nosso Senhor ainda não se convenceu que eu já vivi demais?”. Entendi que ela apelava para o peso de sua doença e, sensível como era, ficava penalizada do trabalho que dava aos seus familiares. Sei que ela não queria morrer, mas queria somente entender e fazer a vontade de Deus. Viver é uma dádiva. Tanto faz um dia ou 100 anos. Viver é sempre uma oportunidade de abrir as portas do coração para deixar a luz de Deus entrar. Sêneca, escritor romano do tempo de Cristo, deixou-nos uma constatação que repito sempre e sei que serve para quem vai viver… pouco ou muito. Ele diz: “Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida”.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

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