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RAFAPEDIA – Uma enciclopedia livre – M e N

M

MISERICÓRDIA. Palavra símbolo do início do ministério do Papa Francisco. Para mim, misericórdia é a realidade mais intrigante do cristianismo. É dela que jorram as mais lindas expressões de vida de quem vive a fé em Cristo e dela também surgem as mais duras interrogações. Misericordioso é aquela pessoa que não considera o merecimento como condição para o seu agir. Infelizmente, o mérito tem sido uma das bandeiras mais levantadas pelos que abraçam a fé no correr da história. Há quem condicione até a salvação ao mérito, o que é um erro teológico colossal. Não somos salvos porque merecemos. Somos salvos pelo amor de Deus manifestado no sacrifício do Calvário. E nisso está a expressão plena da misericórdia de Deus. E somos convocados a também nós viver a misericórdia, a expressar a misericórdia perdoando quem não merece ser perdoado, amando quem não merece o nosso amor. A misericórdia faz toda a diferença. Papa Francisco chegou a dizer que na palavra misericórdia está o nome de Deus.

MODÉSTIA. A modéstia é merce escassa nas prateleiras do mercado humano dos dias de hoje. Sobram exibicionismo, vaidade e arrogância. Quase todo mundo quer brilhar, a qualquer custo. Falta-nos tempo para conhecer quem somos. Modéstia é fruto do autoconhecimento. Renato Russo, um dos gênios do rock nacional da minha geração, que liderou a banda Legião Urbana, em uma das suas canções mais conhecidas pela interpretação de Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, afirma: “vocês são vermes e pensam que são reis”. A coisa, na verdade, caminha mais ou menos nessa direção. Falta-nos modéstia, ou seja, temos muita vaidade e pouca afirmação da situação precária e verdadeira do que somos. Tudo seria melhor se fôssemos mais modestos. Há um equívoco generalizado sobre o que somos. Volto ao Renato: “E vocês armam seus esquemas ilusórios. Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez. Mas, acontece que tudo tem começo e se começa um dia acaba, eu tenho pena de vocês”.

MOTIVAÇÃO. Há uma indústria motivacional montada no Brasil. Palestrantes nesta área ganham rios de dinheiro. Livros, palestras no Youtube e webcards nas redes sociais derramam textos que têm como único objetivo fazer com que as pessoas encontrem motivos para viver. É um sintoma explícito da existência de uma doença que nos consome: a descrença. Os remédios para combatê-la, no entanto, têm qualidade discutível. Certos empreendimentos motivacionais beiram o ridículo. Participei, uma vez, de uma coisa desse tipo. Depois de receber um convite correspondente a uma inscrição bastante cara, fui a um encontro motivacional num salão de um hotel cinco estrelas. O palestrante berrou, aparentemente emocionado, uma série de coisas óbvias do tipo: “você é um ser humano”, “você pode muito”. Numa certa altura, fomos convidados a abraçar pessoas que estavam à nossa volta tendo como trilha sonora uma música adocicada. Balões vermelhos em formato de coração caíram sobre nós e o nosso “líder” concluiu a palestra pedindo para que rezássemos o “Pai Nosso”. Haja motivação!

N

NATUREZA. Palavra coletiva que expressa universos complexos, tudo o que é natural. Nunca me esqueço do período em que tentei estudar meditação cristã. Conhecia, razoavelmente, a obra do jesuíta indiano Anthony de Mello, falecido em 1987 e que teve notificação póstuma da Doutrina da Fé desaconselhando sua maneira de ver a vida, o mundo, a espiritualidade. Afirma-se, naquele documento, que os leitores de Mello podem ser levados a um certo niilismo, isto é, ao vazio, a considerar que a existência não tem utilidade. Eu respeito a posição, mas conheço uma outra face do padre Mello. Ele promove um diálogo raro entre princípios cristãos com alguns conceitos das religiões orientais tradicionais. E foi dele que aprendi que para se fazer meditação, no ambiente cristão, é preciso que voltemos à natureza. Esse conselho não se reduz a procurar um lugar bucólico, mas a sentir, efetivamente, nossos braços, nossas pernas, nossos pés. Meditar seria como “voltar ao estado natural”, “voltar à nossa natureza”. Eu gosto disso e tento trazer à mente esses ensinamentos quando posso fazer uma experiência de meditação.

NOBREZA. O sentido literal dessa palavra me interessa pouco. Confesso que não vi o casamento do Príncipe Harry. Acho a nobreza europeia meio decadente. Não consigo ver muitas vantagens na monarquia. As imagens da Rússia dos Czares tão mostradas para o público brasileiro no mês passado e neste mês de julho têm nos feito ver o resultado de um regime de poderosos quando o povo padece enquanto os nobres vivem e constroem palácios e igrejas. Gosto da palavra para expressar o que há de mais genuíno na vida humana, os valores do espírito. Ela mostra a vida como uma busca da verdade, do amor, da beleza, do bem, e da liberdade. Ou como expressa a obra do poeta norte-americano Walt Whitman que considera a vida como a arte de nos tornarmos humanos através do culto da alma humana.

NOSTALGIA. É sinônimo de saudade, ainda que tenha alguma sutil diferença. Eu tenho saudade do tempo que eu ia ao estádio ver o Goiás Esporte Clube jogar. No período do meu noviciado, em 1984, eu ia até nos jogos da quarta-feira, à noite. Caminhava quilômetros da nossa casa até a estrada entre Trindade e Goiânia e pegava um ônibus, em seguida, trocava de ônibus no terminal do Dergo e ia até a avenida Goiás. Lá, eu tomava um outro ônibus que ia até o Estádio Serra Dourada. Quase meia noite, depois do jogo, fazia o trajeto de volta, sozinho. E eu amava aquilo, mesmo quando o meu time perdia. Hoje, tudo mudou e o Goiás passou a ser um tema que me recuso a tratar. Eu tenho saudades também do tempo em que a Copa do Mundo nos envolvia mais. Minha cabeça e o meu coração já não são os mesmos. Eles já não se aproximam do futebol do mesmo modo. Saudade.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

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