Sem categoria

RAFAPEDIA – Uma enciclopédia livre – O e P

O

OBSÉQUIO. Um conto de Machado de Assis, escrito no século IX, inverte a ordem natural das coisas religiosas e cria uma “Igreja do Diabo”. O texto não é blasfemo, é cômico. Faz rir e pensar. O Diabo comunica a Deus que vai fundar uma Igreja e puxar as pessoas pelas “franjas” para participarem dela. Deus mostra o exemplo de uma pessoa idosa que depois de uma vida honesta, naufragou. E, enquanto se debatia no mar em busca de uma tábua, viu um casal jovem em desespero e fez o maior dos obséquios, o maior dos favores: empurrou a tábua na direção do casal e morreu. Deus perguntou ao Diabo onde ele encontraria “franja” para puxar uma pessoa como aquela. O Pai da mentira respondeu: “A misantropia pode tomar aspecto de caridade”. O mestre Machado encerra cena contando que Deus expulsa o Diabo e reconhece que ele pode agregar fiéis para sua Igreja recolhendo-os pelas “franjas” das falsas virtudes.

ORIGINAL. Quando eu era estudante de Teologia, na década de 1980, todas as pessoas que eu conhecia tinha simpatia e reverência por Leonardo Boff. Era uma unanimidade. Causa-me profunda estranheza, hoje em dia, que exista tanta restrição ao nome desse teólogo original. Sua legítima opção político-partidária atual pode ser a responsável por essa “virada” na opinião da maioria. Ele diz que Luiz Inácio Lula da Silva é “candidatíssimo” à Presidência da República, este ano. Admiro sua competência intelectual. É dele as expressões da originalidade da mensagem de Cristo quando“se desteologiza a religião fazendo buscar a vontade de Deus, não só nos Livros Santos, mas principalmente na vida diária; se desmitologiza a linguagem religiosa usando as expressões das experiências comuns que todos fazem; se desritualiza a piedade, insistindo que o homem está sempre diante de Deus e não somente quando vai ao tempo para rezar; se emancipa a mensagem de Deus de sua ligação a uma comunidade religiosa dirigindo-a a cada homem de boa vontade; e, por fim, se seculariza os meios da salvação, fazendo do sacramento do outro o elemento determinante para entrar no Reino de Deus”.

OUSADIA. Conhece aquelas piadas dos cúmulos? Exemplos: qual o cúmulo da maldade? Colocar tachinha no assento da cadeira elétrica; qual o cúmulo da mesquinharia? Dar esmola e pedir troco; qual o cúmulo da confiança? Jogar palitinho por telefone; qual o cúmulo da organização? Tomar sopa de letrinhas em ordem alfabética. Pois é, e o cúmulo da ousadia? Quem não perde a piada, pode responder: Chegar em casa bêbado, de madrugada, encontrar a mulher com a vassoura na mão e perguntar se ela vai varrer a casa ou vai dar uma volta, voando. Ousadia dessas tem um amigo meu que fundou uma agência de comunicação católica e a batizou com um termo inspirador, similar à intrepidez e à ousadia, e enfrenta, todos os dias, aquela velha e manjada conversa de padres, bispos e leigos que conduzem sempre para uma encomenda de um trabalho para as paróquias ou movimentos que seja de qualidade espetacular, entregue em prazo inacreditável e bem baratinho, quase de graça.

P

PERSPICÁCIA. Gosto muito dessa palavra. Perspicácia é agudeza de espírito, sagacidade. Eu desejo, do fundo do meu coração, que os médicos para os quais eu sou enviado para consultas a respeito da hipertensão, da intolerância à glicose, da esteatose, da obesidade e da síndrome do pânico sejam perspicazes. É disso que vai depender o futuro da minha vida, nesta terra. Adianto, no entanto, que antes deles, minha comunidade religiosa conta com a perspicácia de uma pediatra maravilhosa. Somos cinco marmanjos cuidados por uma delicada médica pernambucana aposentada que é sagaz diante de nossas “molezas” e desculpas esfarrapadas. Vejo nela agudeza de espírito. A prática médica exige, naturalmente, uma atenção constante a detalhes sutis na observação das pessoas. Nossa doutora tem prontidão de raciocínio e nos indica colegas que são excepcionais. Ela sabe que, às vezes, a melhor resposta de um médico perspicaz para um paciente não está nos protocolos, nos medicamentos e nem depende da ciência, mas chega por meio de uma boa dose de presença de espírito.

PARCIMÔNIA. O mundo opulento dos nossos dias esqueceu o significado desse termo. Parcimônia é coisa rara. A maior parte das coisas que se busca na sociedade de hoje é marcada pela abundância, o excesso, o desperdício. Parcimoniosos são os que sabem o valor de cada coisa, ainda que pouca, precária. O capitalismo costuma congregar esse pessoal nas cadernetas de Poupança, mas não precisa tanto. Basta tomar, todos os dias, uma boa dose de simplicidade e, talvez, aprender com os meios de comunicação reinantes o significado da frase desenhada em vinhetas insistentes: “o menos é mais”.

PERSEVERANÇA. A congregação religiosa à qual eu pertenço, com muito orgulho, foi fundada por Afonso Maria de Ligório. Um napolitano nascido no século XVII e que iluminou o século seguinte com a sua bravura e inteligência. Sua memória litúrgica é celebrada no primeiro dia deste mês de agosto. Ele nos deixou uma recomendação de que acrescentássemos aos clássicos conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência, um voto de perseverança. Ele morreu com 91 anos e foi o melhor exemplo do conselho que deu ao cuidar de sua espiritualidade pessoal com primor sem deixar de acompanhar os confrades e ajudar o povo a crescer na fé por meio da literatura teológica e devocional e das missões populares. Ele perseverou, até o fim e com muita convicção. Ele diz: “Lançaste mão do arado: principiaste a viver bem; portanto, agora mais do que nunca, deves recear e tremer… Por quê?… Porque, se retrocederes (o que Deus não permita) e tornares a trilhar o mau caminho, Deus te excluirá do prêmio da glória. Por conseguinte, evita, fortalecido pela graça de Deus, as ocasiões más e perigosas, frequenta os sacramentos, faze cada dia meditação. Serás feliz se assim continuares até que Nosso Senhor Jesus Cristo venha julgar-te”.

Pe. Rafael Vieira Silva, CSsR

CRÍTICAS E SUGESÕES

[email protected]