LI, VI, OUVI, ESCREVI

RAUL, O INÍCIO, O FIM E O MEIO Netflix

O filme é de 2012. Walter Carvalho é o diretor, não é para menos, a fotografia é de impressionar. Eu atravessei os anos de 1970, vivendo dos 7 aos 17 anos, sem saber nada do que rolava no Brasil de verdade. Nem na Política, nem na cultura, nem na música, particularmente, mas eu conheci amei “Maluco Beleza”. Cantava sozinho. Aliás, hoje ainda canto. Do nada, sem mais nem menos, se começo a cantarolar, sai o hino do Raul Seixas. Isso sem falar que acho geniais todas as letras que conheço desse baiano singular. Confesso, no entanto, que não conhecia o cenário de vida da maneira que esse filme mostra. Muita loucura real. Várias mulheres. Filhas. Muita droga. Vários parceiros. São mais de duas horas de duração e está disponível no Netflix. Não me contive, apertei o pause e anotei algumas coisas incríveis.

Logo nas falas iniciais, quando se tenta contextualizar a obra do Raul, ouve-se um depoimento dele no qual fala que brasileiro não gosta de ler. Uma realidade percebida naquela época e se consolida hoje em dia. E, parece que, agora, as coisas pioraram de forma ainda mais acentuada. A geração atual, com raras exceções, não suporta “textões”. As gerações anteriores também estão achando que livro é muito caro. E isso, sem falar que todas elas estão inebriadas com a comunicação das redes sociais onde todo mundo sabe de tudo e não sabe de nada. Raul achou o rumo da sua carreira nesse trauma brasileiro: fez um texto direto, profundo, escancarado, gritado, mas ainda assim, simples e compreensível por meio da sua arte.

Nas andanças por suas canções, ouvi uma pela primeira vez e não qual é o título, mas nela Raul diz assim: “antes de ler o livro de um guru, escreva o seu!”. É ou não é genial? Nunca ouvi nada tão lúcido, válido e atual. Em tempos de mitos baratos, rasos, intragáveis, ouvi isso aí dá uma força enorme. É uma mistura de lucidez com assertividade. Quase dá vontade de achar que está tudo dito nessa frase. Fiquei pensando inclusive na aventura intelectual que nos leva a reproduzir textos de forma organizada e constante. E o meu livro? Quando foi foi que eu escrevi? Fiquei maravilhado. Qualquer hora dessas, acho essa música.

No meio de tanta confusão dos depoimentos, o filme mostra Paulo Coelho como um oásis de calma. Meio professoral e antipático já começa desfazendo da ideia do filme: uma lenda não tem história, diz ele. Depois, ao recordar-se das letras que fizeram juntos, na limpíssima cidade de Genebra, na Suiça, onde ele mora hoje em dia, uma mosca insiste em pousar no seu ombro. Ele diz: Raul. Nelson Mota dá um depoimento contando um raro momento de modéstia do autor do “O Alquimista” e ele diz que existem duas músicas do Raul que ele queria ter escrito: “Maluco Beleza” e “Metamorfose ambulante”. Mas, parece que fugiu da pergunta sobre quem é o grande parceiro do Raul. Ele diz que foi o próprio Raul, mas outra pessoa diz que foi Claudio Roberto, o cara que diz outra coisa incrível nesse filme: “o homem só precisa de duas coisas: comer e sonhar”.

Num dos seus últimos sucessos, a “Cowboy fora da lei”, Raul diz que não precisa ler jornais porque para mentir sozinho, ele é capaz. Isso também me fez pensar sobre minha profissão, sobre a mídia de hoje e de sempre. Aliás, ele antecipou o fenômeno de mídia. Até mesmo nos bastidores, era sempre um artista. Fazia malabarismos, se apresentava com roupa muito justa e fantasias e cultuava o rock and roll o tempo inteiro. Parece que se imiscuiu com seita satânica, consumia muita cocaína e bebeu até o fim, mesmo depois de ter seu pâncreas reduzido a quase nada. O filme passa a impressão que teve um final de vida melancólico, mesmo com uma linda poesia para morte sendo declamada por ele na qual ele diz para morte que quando viesse busca-lo, viesse com a melhor roupa. Ele tinha pavor da Igreja e isso eu não sabia. Eu sempre achei “Tente outra vez” muito religiosa.  Raul Seixas morreu sozinho, em agosto de 1989.

Rafael Vieira

Netflix, Goiânia, 7.3.2021