LI, VI, OUVI, ESCREVI

ROBERTO COTRONEO: O RISCO DE PERDERMOS O SENSO DA HISTÓRIA

Entre os colunistas da revista “Sette” que acompanha, semanalmente, o jornal Corriere della Sera, há um jovem senhor que se ocupa dos fenômenos do ambiente de internet. Ele escreve sobre desafios novos que se apresentam a todos nós que navegamos, pesquisamos, vivemos nesse mundo novo. Leia a última coluna.

Roberto Cotroneo/ Browin’ in the web

Não há mais percursos, somente praças

Estamos todos muito próximos, todos aqui e agora. Por isso, há uma partilha, que, no entanto, não é o repasse de um saber. Estamos perdendo o sentido da história.

Corriere della Sera, Revista Sette, 22.11.2013

Vinte anos atrás, a Universidade de Bologna fez uma experiência. Convidou para passar alguns meses na cidade, dois griot senegaleses como se fossem dois antropólogos: estudariam a nossa sociedade, voltariam ao país deles para contar o que viram, sentiram, entenderam. Os griot são contadores de histórias e, frequentemente, também cantores. A cultura dos griot é, substancialmente, subsaariana. Eles estão no Mali, no Senegal, na Guiné e Gâmbia. Proferem suas histórias, mantém a tradição e as misturam com a música. Cada geração passa o exemplo e o testemunho para a geração sucessiva. E o testemunho não é outra coisa que não seja a cultura dos tempos que vem assimilada, reconhecida. Os testemunhos são os pontos de referencia para a cultura dos povos e representam o caminho, o caminho no tempo.  Aquilo que compartilharam os nossos pais, nós conhecemos. Aquilo que compartilhamos hoje, contaremos aos nossos filhos.

CAMINHO OU MARKETING – Todas as culturas sólidas têm um forte senso de memória, do tempo e, naturalmente, da história. O testemunho é um modo de não perder-se. Para se reconhecer em um humus comum. Nasci nos primeiros anos da década de 1960 e os meus pais nasceram nos anos de 1920. Não escutei a musica deles, mas li (em parte) seus livros. Vesti-me de modo diferente. Diferente também foi a linguagem, as histórias pessoais, os sentimentos, a emoção. Sei tudo sobre eles e do tempo deles, mas eu e meu padre não escutávamos a mesma rádio, não líamos os mesmos jornais, não falávamos a mesma língua. Éramos gerações distantes com traços do tempo e de vivencia que tinham pouca coincidência.

Aquilo acontecia porque naquele tempo haviam estradas e caminhos, hoje, no entanto, existem praças: praças virtuais, praças culturais, políticas, digitais. Não há um caminho, há uma partilha. Mas a partilha não é aquela dos griot que apresentam um saber a disposição de todos, explicando o porquê e como deve ser feita a releitura e entendido. A partilha é uma forma de mediação. É um território comum onde as gerações são todas iguais, onde as idades não têm importância, onde os sentimentos são homologáveis tanto por alguém que tem 25 anos, como por alguém que tem 50 anos.

Será sempre assim. As gerações compartilhavam as experiências vividas e se reconheciam justamente por esse motivo: as gerações que fizeram e viveram a guerra, a geração do boom econômico, a geração ’68, aquela que sofreu o terrorismo, aquela que atravessou o hedonismo de Reagan, aquela que não queria morrer como democrata cristã e aquela que cresceu com Berlusconi. Mas se anula os percursos e compartilha tudo no presente, o tempo, as estórias, o passado ao máximo, pode tornar-se marketing. Aquilo que foi um tempo atrás, a indústria discográfica, em cima dos anos oitenta e noventa, que fez um revival.  Quiseram ressuscitar os cantores e as tendências que já eram marginais e efêmeras quando estavam no auge e reapresenta-las no mercado como uma moda. O revival, a moda que se refaz continuamente é uma maneira de para revisitar o passado como se fosse marketing. Eu e meus filhos ouvimos mais ou menos a mesma musica, mobiliamos as casas do mesmo modo e usamos as redes sociais com as mesmas regras. Entendo as coisas distantes somente como um presente longo e dilatado.

Alguns anos atrás eu vi um documentário de Elisabetta Sgarbi intitulado: “Quando os alemães não sabiam nadar”. Um filme-testemunho sobre a Resistência e seus partidários do Ferrarese. Eram belíssimos, os close desses partidários, os griot italianos, que contavam a história deles e a nossa história. Hoje vivemos o terror de perder tudo porque não encontramos mais os caminhos comuns. E são os caminhos comuns capazes de fazer com que as pessoas se escolham e se conheçam. Nas praças virtuais ou reais, todos estão muito próximos, todos estão aqui e agora, sem o tempo de contar o que viveu e o que vive, sem o tempo da história.

Roberto Cotroneo

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Rafael Vieira, 23.11.2013