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SABEDORIA ESPIRITUAL – S. Cirilo de Jersualém

SABEDORIA ESPIRITUAL

Reflexões sobre post de São Cirilo de Jerusalém

“Assim como dois pedaços de cera derretidos juntos se tornam um, do mesmo modo o que comunga, de tal sorte está unido a Cristo, que ele vive em Cristo e Cristo vive nele”

[DERRETER]

Gostei imensamente da imagem utilizada por um dos mais conhecidos dos 36 doutores da Igreja, Cirilo de Jerusalém quando fala em pedaços de cera que se derretem. Acho que é uma metáfora do amor. Um movimento de transformação radical que nos tira do estado sólido, acostumado, acomodado e nos leva para o estado líquido, movimentado, aquecido. Essa é uma feliz expressão do que a espiritualidade pode fazer em nossa vida: derreter nossa essência por meio do calor da fé. E esse derretimento não nos rouba o que existe de mais profundo e verdadeiro em nós, mas nos coloca num estado de maior agilidade para percorrermos os canais da existência visitando todos os espaços que nos são disponibilizados pelo tempo. Liquefeitos e quentes podemos ser derramados sobre a terra. É claro que o frio externo nos fará voltar ao estado sólido, só que a força da comunhão com Cristo, levaremos parte dele em nós quando a vida já se mostrar, outra vez, monótona e parada. Deixamos um pouco de nós em Cristo também para suplicar novos derretimentos.

[UNIDADE]

Na celebração da Eucaristia, durante o rito da comunhão, naquele momento que é conhecido como “oração pela paz”, o padre diz: “dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade”. A unidade, portanto, é desejo de Deus para a nossa vida e, talvez poderíamos supor ser a pré-condição para a paz que tanto sonhamos. Entendendo assim, não há que se perder tempo esperando a paz se não nos jogarmos, sem reservas, na construção da obra da unidade. Como todo mundo sabe, promover unidade não tem absolutamente nada a ver com a uniformidade, isto é, todo mundo pensar e fazer as coisas do mesmo jeito. A unidade, no dizer do Papa Francisco, é uma “diversidade reconciliada”. Ela se manifesta quando nossas diferenças deixam de ser empecilhos para a nossa união e passam a ser uma fonte de enriquecimento recíproco. Unidade com Cristo, portanto, conforme nos aconselha São Cirilo, seria o mesmo que colocar toda a riqueza de nossa individualidade à disposição para receber, com alegria, a Pessoa de Cristo como nosso Senhor e Salvador.

[COMUNHÃO]

Um dos cantos que mais me fascinava na adolescência e que era cantado durante a comunhão, na missa, dizia que “comungar é um perigo”. Trata-se de um texto que se divulgava. Com entusiasmo, no tempo em que estávamos sob a inspiração da chamada “Teologia da Libertação”. Um tempo maravilhoso no qual descobrimos o sentido da vida, da história e da nossa vocação missionária. Tenho tanta pena de ver, hoje em dia, algumas pessoas que, sequer sabem do que se trata esse modo de fazer teologia junto ao povo crente e sofrido da América Latina, e saem por aí demonizando como se fosse um modo “errado” de conceber a fé em Cristo ou um tempo em que o “comunismo” tomou conta da Igreja. Uma lástima. Aquele canto de comunhão dizia: “É Jesus este Pão de igualdade, viemos pra comungar, com a luta sofrida de um povo que quer, ter voz, ter vez, lugar. Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar, com a fé e a união nossos passos um dia vão chegar”. Como era bom cantar que Jesus é este “Pão de igualdade”.

[VIVER]

São Cirilo lembra que, em comunhão com Cristo, nós vivemos nele e Ele vive em nós. A expressão “viver” evoca a plenitude da existência. Há quem propague que viver em Cristo seja anular-se, deixar tudo, abandonar tudo. Esse tipo de atitude não parece combinar com a força extraordinária da expressão “viver”. Quem se anula, morre. Quem vive, descobre o segredo mais profundo do mundo. Sabe que respirar é um exercício de gratidão à bondade de Cristo. Acho que que viver em Cristo é o mesmo que encarnar seus ensinamentos e seguir seu testemunho. Eu gosto muito de uma canção do Osvaldo Montenegro que fala em viver. Uma música que demonstra profundo ceticismo para com o que muita gente acha que Deus gosta, mas exalta a aventura de viver: “Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora. E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela: Eu quero ser feliz agora!”. E continua: “Se alguém disser pra você não dançar. E que nessa festa você tá de fora. Que volte pro rebanho. Não acredite, grite, sem demora: Eu quero ser feliz Agora!”.