Sem categoria

SABEDORIA ESPIRITUAL – S. Francisco Sales

SABEDORIA ESPIRITUAL

Reflexões sobre post de São Francisco Sales

“Considerai vossos defeitos com mais dó que indignação, com mais humildade que severidade e conservai o coração cheio de um amor brando, sossegado e terno”

[DEFEITOS]

Uma psicóloga que merece todo o respeito pela teoria que desenvolveu e pela prática psicoterápica que realizou no Canadá e no Brasil entre as décadas de 1980 e nos primeiros anos deste novo século, Micheline Lacasse, dizia que aquilo que nós costumamos chamar pelo nome de “defeitos” não existe. Na verdade, cada vez que encontramos em nós ou nos outros um tipo de comportamento ou de pensamento que poderíamos chamar por esse nome, deveríamos reconhecer que são, na verdade, gritos por socorro. Um defeito, portanto, é um pedido de ajuda. A demonstração de um mal-estar psicológico, existencial que se manifesta num jeito de agir ou de pensar. Desse modo, ao identificar algo desse tipo em nossas vidas, ao invés de cairmos, como patos, na armadilha da condenação e da fofoca, poderíamos nos perguntar de que modo poderíamos responder, com caridade, aquele S.O.S. que o tal “defeito”, em nós ou nos outros, está sinalizando. E mais do que o questionamento, seria necessário nos mobilizarmos para oferecer, ao menos, um gesto de compreensão, de serenidade e de apoio.

[DÓ]

Há quem não goste de usar a palavra “dó”. Aliás, uma antiga professora de português, amiga muito querida, me corrigiu quando eu disse, com toda tranquilidade, que tinha “uma” dó danada das pessoas que torciam para um time que rivaliza com o meu no estado do Rio de Janeiro. Ela me disse: “dó é substantivo masculino, seu flamenguista!” Eu sempre achei que era feminino. Continuo considerando que soa melhor do jeito que sempre falei, mas aceito a correção apesar de não saber usar a palavra no masculino. De todo modo, quem tem dificuldade com a palavra crê que seja um sentimento que menospreza a si mesmo ou as outras pessoas. Ter dó parece considerar alguém coitado ou incapaz. Na verdade, também esse tipo de situação mereceria uma correção: ter dó é o mesmo que ter compaixão. O mundo seria outro porque as pessoas seriam outras se fôssemos mais capazes de nos compadecer. A indignação nos enraivece e, muitas vezes, nos paralisa. A compaixão nos coloca ao lado, nos conduz à solidariedade. Não há mal algum em ter dó de si ou dos outros, se aprendemos essa lição, muito pelo contrário.

[HUMILDADE]

Em confronto com o termo severidade, a palavra humildade, no conselho dado pelo Doutor da Igreja, ganha contornos muito específicos. Trata-se de “baixar a bola”, não esperar tanto de nós mesmos e dos outros. Nossas expectativas são cruéis. Elas nos levam para uma ilha da fantasia onde só encontraríamos gente bela, bonita e educada. A vida real não é bem assim. Um dos mais conhecidos palestrantes motivacionais norte-americanos do momento, divulgador da chamada Neuro-Linguística, Tony Robbins, costuma dizer para as pessoas para que transformem as expectativas em apreciação das coisas e isso pode mudar uma vida inteira. A lógica parece ser muito simples: se cada um de nós, ao invés de dar espaço interior para a criação de expectativas sobre o que somos capazes ou do que as pessoas podem fazer procurarmos mais conhecer nossas forças e fraquezas e entender que “os outros são os outros e só”, como canta a Paula Tolher do Kid Abelha, nossa vida pode melhorar muito. Parece ser esse o conteúdo da palavra humildade diante dos defeitos que encontramos agarrados em nossa história.

[CORAÇÃO CHEIO DE AMOR]

Coração cheio de amor brando, sossegado e terno! Que coisa mais linda! Este mês de janeiro de janeiro de 2019 é tempo apropriado para renovar o propósito de limpar o coração tirando para fora dele tudo que não seja esse tipo de amor. Gosto dos adjetivos usados pelo santo: brando, sossegado e terno. Eles são oportunos como conselhos espirituais para nossos tempos tão cheios de velocidade, violência e mentiras. Amor brando indica amor dócil, afável. Nada de amores coléricos, irresponsáveis. Há quem esteja esperando um Brasil acima de tudo. Nem sei se é por aí, mas é bom amar com mais brandura. Amor sossegado não é amor acomodado, maçante e aborrecido. Amor sossegado aponta mais para um amor desprovido de rendas e firulas. Amor amadurecido, que não se permite viver uma vida em sobressaltos. Amor sossegado é amor quieto, sereno, mantido pelas certezas possíveis, abertos às surpresas da vida. E, por fim, o último adjetivo mostra, na verdade, a excelente forma de expressão do amor: a ternura. Esse também é conselho para o Ano Novo: ainda que seja preciso ser firme, vamos deixar o nosso coração se inundar da ternura.