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SABEDORIA ESPIRITUAL – S. Pedro Damião

SABEDORIA ESPIRITUAL

Reflexões sobre post de São Pedro Damião

“Cristo seja ouvido na nossa língua, Cristo seja visto na nossa vida e sentido no nosso coração”

[OUVIR]

Há quem faça a distinção de sentido entre ouvir e escutar. Ouvir seria algo mais como perceber os sons e escutar mais específico. Consultando o Dicionário Michaelis, vamos perceber que essa distinção tem amparo porque escutar pede maior empenho; escutar é, na verdade, um esforço para identificar, com maior precisão, o que se está ouvindo. Seguindo esse entendimento, a frase do Doutor da Igreja que viveu no século XI podia ser entendido mais como escutar do que ouvir. Cristo precisa ser escutado, diríamos hoje. Na sabedoria chinesa antiga, sábio era quem sabia escutar e não quem sabia falar, como normalmente entendemos. Um grande brasileiro, falecido há quatro anos, Rubem Alves foi um teólogo excepcional, um escritor singular e um psicanalista respeitado. Ele, em sua imensa liberdade de linguagem, falava que era preciso criar uma disciplina nova nas escolas que, como a oratória, fosse valorizada pela sociedade. O título dessa matéria seria “Escutatória”. Tudo isso para se aprender essa arte tão necessária, principalmente se se trata de escutar Cristo.

[NOSSA LÍNGUA]

Nossa língua não é, naturalmente, o mesmo que o vernáculo. Explico: obviamente, o conselho dado não estaria se referindo em uma escuta de Cristo em português. Nossa língua tem mais a ver com a língua de todos os humanos. O modo como todos os humanos se expressam. A língua que fala pelo olhar e pelo sentir. Nossa língua é o nosso corpo inteiro, nossa alma. Escutar Jesus em nossa língua, seria do mesmo modo como ele pediu que amássemos a Deus e aos outros: com todo o nosso coração, de toda a nossa alma e todo o nosso entendimento. Escutar Jesus na nossa língua é escutar Jesus colocando o nosso coração perto dele, nossa alma aberta ao seu Espírito e colocando toda a nossa capacidade de inteligência e de compreensão para acolher o Seu testemunho e a Sua Palavra. Ao lembrar que precisamos escutar Jesus em nossa língua também é uma advertência: não podemos deixar a palavra e a vida Cristo nas alturas, no etéreo, na abstração. É preciso que tudo o que ele fez e disse sejam traduzidos no modo de ser real e cotidiano da vida dos humanos.

[VER]

Antoine de Saint-Exupéry foi muito celebrado em 2015 porque uma de suas maiores obras, o livro “O Pequeno Príncipe” tornou-se uma obra de domínio público. É justamente nessa obra que Exupéry coloca nos lábios do principezinho uma verdade inquietante: o essencial é invisível para os olhos. Isso significa que para ver, de verdade, é preciso de muito mais do que a visão física. Cristo deve ser visto com todos os nossos sentidos. Depois de sua morte e ressurreição, Jesus, o Cristo de Deus, passou a ser visto dessa maneira mais completa e intensa: visto com toda a nossa vida. A visão, nesse sentido, é uma espécie de síntese de todos os sentidos e também a nossa boa vontade em acolher também aquilo que não pode ser visto a olho nu. Uma das possibilidades de ampliação da visão de Cristo pode ser, talvez, o estabelecimento de um confronto entre o que Cristo disse e o que Cristo fez. Todos nós vamos conseguir ver um pouco mais cada vez que fizermos esse tipo de meditação. Jesus falou para que nos amássemos e nos amou. Olhe como Ele nos amou! Aí está o modo de ver, com maior profundidade, o seu mandamento.

[SENTIR]

Sentir Cristo, no coração, nos pede São Pedro Damião. Aliás, o coração é o centro de todo o sentir. Apesar de não perdermos de vista que o centro das emoções se encontra, cientificamente, no cérebro, não custa nada aprofundar a imagem do coração como a sede dos sentimentos. Essa história existe desde os gregos antigos, muito antes do nascimento de Cristo. Os anais da história registram que, por volta do século 5 a.C., na Grécia, em uma discussão entre filósofos sobre a localização da alma. Para Platão a alma continha três partes: a primeira ficava na cabeça e estava associada ao intelecto; a segunda situava-se no coração e relacionava-se à raiva, ao medo, ao orgulho e à coragem; a terceira ficava no fígado e intestinos e tinha a ver com a luxúria, a ganância e as paixões em geral. Já para Aristóteles, o coração era a sede da inteligência e das emoções porque era quente e se movia, enquanto o cérebro era frio e imóvel. Considerando isso, ver e sentir Cristo com todo coração remete ao movimento e ao calor. Ver e sentir com maior dinamismo e maior fervor.