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SABEDORIA ESPIRITUAL – Sto. Agostinho

SABEDORIA ESPIRITUAL

Reflexões sobre post de Santo Agostinho

“Possuir Deus é viver de maneira feliz”

[POSSE]

Se fôssemos espiritualmente mais sóbrios, bastaria esse ensinamento de Santo Agostinho para entendermos o mistério que nos envolve. O problema é que tendemos sempre a complicar. Comecemos: você se sente confortável com a expressão “possuir Deus”? Eu me desorganizo um pouco. Tenho comigo que a posse é uma palavra dura, uma realidade que não cabe na relação com Deus. Parece que nos foi ensinado que possuir é algo mais próximo da aquisição do poder sobre alguém ou alguma coisa. Possuir é dominar. Se eu tiver algo, posso comandar o que tenho e as realidades que envolvem a minha propriedade. Então, “possuir Deus” não tem nada ver com isso. A ”posse”, neste caso, é uma relação parecida com o que o nosso povo chama de “meu” e “minha” quando se refere a filho ou filha. Um pai ou uma mãe não é dono, proprietário de um filho ou de uma filha. Mas, a ligação entre eles é tão estreita e forte que nada poderá romper. É nesse sentido que Santo Agostinho fala de “posse de Deus”. Um vínculo tão forte que nos dá a condição de chamá-lo, de verdade, de “Meu Deus”.

[DEUS]

Quando é preciso fazer qualquer discurso sobre Deus, eu me lembro do saudoso Rubem Alves. Teólogo, Filósofo, Psicanalista, Escritor falecido em 2014 e que me ensinou muito. Tive a felicidade de contar com um texto dele como prefácio do meu segundo livro. O Rubem, ao falar de Deus, admite que sua atitude é de profundo respeito: “Sou um construtor de altares à beira de um abismo. Construo meus alteres com poesia e beleza. Os fogos que acendo nos meus altares iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso”. E doce cronista da vida, da religião e da alma humana admitia que diante de Deus, também é preciso decidir em reconhecer o Deus verdadeiro na diversidade “divina” que nos circunda: “Há tantos deuses… Os homens ferozes e vingativos imaginam um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno onde se vinga dos seus desafetos por toda a eternidade. Há o Deus jardineiro que criou um Paraiso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos… Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com as águas do mar azul… Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal… E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?”.

[VIDA]

Tenho pensado muito sobre o que, de fato, significa viver. Reconheço que, muitas vezes, associo como “mais vida” apenas àquilo que é prazeroso. Isso me leva a considerar como “menos vida” os momentos em que a vida se torna muito dura, pesada, quando adoeço, por exemplo. Falta-me, eu sei, uma visão do conjunto da vida considerando e incluindo suas dores e provas. Daí acaba que entendo pouco da vida. Sinto que preciso avançar muito, refletir muito e, principalmente, rezar muito. A vida é um mistério, eu sei. Quando Santo Agostinho fala em viver, certamente supõe que estejamos compreendendo a vida de forma ampla. E, talvez, as situações em que a vida se torna dura, desafiadora, necessitada de sentido profundo sejam justamente onde se pode, de fato, provar o que é viver de verdade. Quando os sorrisos são fáceis, não há tanto o que pensar. Quando a saúde é sólida, o corpo responde às melhores solicitações. O viver e o seu sentido mais expressivo se encontra nas encruzilhadas mais complicadas da existência.

[FELIZ]

Viver de maneira feliz, como diz o Bispo de Hipona, é tarefa para gente que tem abertura de mente e de coração. Gente que escuta os sussurros constantes do Espírito. Não adianta nada achar que viver de maneira feliz é estar, o tempo todo, com cara de alegre sem saber a razão. Papa Francisco tem insistido de que, nós que temos fé, devemos dar testemunho da verdadeira alegria. Essa alegria pode ser sinônimo de vida feliz como fala Santo Agostinho. E o Papa Francisco desata aquele nó dado pelos pessimistas que insistem em dizer que não da para ser feliz o tempo todo. Ele diz: “A alegria não é viver de risada em risada. Não, não é isso. A alegria não é ser engraçado. Não, não é isso. É outra coisa. A alegria cristã é a paz. A paz que está nas raízes, a paz do coração, a paz que somente Deus pode nos dar. Esta é a alegria cristã. Não é fácil preservar esta alegria”. E nos dá a base dessa alegria que acompanha o viver de uma maneira feliz: “A alegria cristã é o respiro do cristão, um cristão que não é alegre no coração não é um bom cristão. É o respiro, o modo de se expressar do cristão, a alegria. Não é algo que se compra ou que faço com esforço, não: é um fruto do Espírito Santo. Quem faz a alegria no coração é o Espírito Santo”.