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SABEDORIA ESPIRITUAL – Sto. ALlberto Magno

SABEDORIA ESPIRITUAL

Reflexões sobre post de Santo Alberto Magno

“O olhar é a vitrine do sentimento”

[ARTIGO DEFINIDO]

Vivemos em tempos de artigos indefinidos. Está tudo muito líquido. Os conceitos escorrem, facilmente, entre os dedos. Antes, se alguém nos perguntasse o que é uma família, saberíamos responder com um conceito claro. Hoje, não mais. Uma família pode ser totalmente diferente da outra e ser família com a mesma substância. Não se fala mais em “a família”, mas em uma família assim, outra família de outro jeito. Estamos mais para artigos indefinidos. É mais seguro seguir na direção da indefinição para não se correr o risco de dizer uma besteira sem tamanho. Eu posso assegurar, por exemplo, que se você tiver que escrever algo usando o artigo definido, por favor, use o indefinido e você estará muito mais protegido. Dou um exemplo bem simples: se você tiver a vontade de escrever “o coração humano é cheio de maldades”.  Resista. Escrevendo desse modo você não deixa nenhum coração fora da sua sentença. E ai, alguém virá corrigir você argumentando que nem todo coração humano é cheio de maldades. O uso do artigo definido não é para gente que nem eu e você. É para Santo Alberto Magno. Ele pode falar de “o olhar”.

[OLHAR]

Pode parecer que não, que não tenho cancha para tanto, mas publiquei 18 livros. Claro que não são lá essas coisas, mas tentei refletir sobre diversos assuntos. Um deles, foi o olhar. Eu havia apenas terminado de ser submetido a uma cirurgia refrativa e notei que minhas vistas mudaram para sempre. Nunca mais fui capaz de ver como via antes. Aquilo me intrigou de tal maneira que fui dissecar esse fenômeno produzido pelos olhos. Dei àquele trabalho o título de “Olho nu”. E como me fixei naquilo cheguei à compreensão do olhar como uma atitude de vida e conclui que a vida muda quando a gente muda o nosso jeito de olhar as coisas, as pessoas, a realidade. Na capa daquele livro, em amarelo e preto coloquei a fotografia de um menino indiano com olhos absolutamente incríveis. É impossível não se comover com aquele olhar. É uma mistura de inocência, sagacidade, alegria, mistério e alegria. Um olhar nos revela, apesar de eu conhecer gente que já foi capaz de domar o olhar de tal maneira que fazem deles gato e sapato. Olha como se quisesse, e não quer. Olha como se acreditasse, e não acredita. Ainda assim, mesmo teatral, o olhar é vitrine.

[VITRINE]

Há uma profissão chamada vitrinista, sabia? Pois é, existe. Eu fui investigar o que um vitrinista faz e descobri que ele precisa ter formação em uma dessas áreas: Moda, Arquitetura, Marketing ou publicidade. A função dele pode ser descrita como o responsável por estudar o tipo de produtos que deseja vender usando a criatividade para incutir no consumidor o desejo de comprar. Nada mais, nada menos que isso: convencer alguém que olha para a vitrine de que ela precisa comprar o que está exposto. Acabou, portanto, aquela ideia de apenas jogar produtos atrás de um vidro e colocar umas flores para enfeitar. Já se tornou uma ciência. Ele tem que estar atento para elaborar o modo de colocar as coisas na vitrine de forma criativa. Há cursos técnicos de vitrinismo. Pois é. Se pudéssemos voltar essas informações para a afirmação de Santo Alberto Magno, poderíamos dizer, sem medo de errar, que antes que a ciência chegasse, o olhar humano já tinha os preceitos do vitrinismo aplicados de forma correta. Quem nunca sucumbiu a um olhar? Eu já. Muitas vezes.

[SENTIMENTO]

O olhar é vitrine do sentimento, mesmo quando ele está sufocado. É um perigo olhar para os olhos de alguém. Você pode ver o que coisas para as quais não estava preparado. Outro dia, vendo uma cena corriqueira de rua, m atrevi a olhar para uma moça que tinha nariz de palhaço e jogava alteres no sinal de trânsito. Fiquei com medo do que eu vi. Passei um bom tempo pensando. Naquele olhar, estava exposto um bocado de coisas. Havia amor pela sua arte, mas também havia indignação pelo momento social e econômico que estamos atravessando. Naquele olhar também havia raiva e medo. Quantas pessoas poderiam tratá-la mal e aquele olhar já se defendia mostrando que apenas estendia a mão para recolher uma moeda, se sua arte merecesse. Naquele ar havia expectativa sobre a quantidade de moedas que cairia na sua mão. Talvez merecesse mais. Naquele olhar havia a história de uma menina com lá seus 19 anos, saia de cigana, cabelos presos. Aquele olhar trazia coisa demais. Fiquei atordoado. Talvez fosse melhor não ter olhado aquele olhar, mas foi bom. Gostei de olhar aquela vitrine tão singular.