LI, VI, OUVI, ESCREVI

SEGUNDA CHAMADA

O direito ao"arrepio" está franqueado para as cenas em que a Débora Bloch dá um show de atuação como professora de periferia.

Professoras

Fazia tempo que eu não chorava tanto. Vi algumas cenas da série Segunda Chamada, da Rede Globo. Não posso dar informações do contexto, mas algo chegou direto ao meu coração. Uma personagem representada por Débora Bloch me trouxe a imagem de muitas mulheres que amo muito e que são professoras. Mulheres que enfrentaram a idade e frequentaram o Ensino Médio no meio de turmas muito jovens, como minha mãe e duas amigas que iam comigo para a Escola. Mulheres que deixaram uma carreira acadêmica que as levariam ao Ensino Superior e se fixaram na educação de crianças e adolescentes e com esse propósito ensinaram na zona rural como aconteceu com minha irmã e suas lindas companheiras. Mulheres que ensinaram na Igreja e depois foram ensinar adultos em cursos para profissionais profissionais como ocorreu com uma amiga norte-americana mais brasileira que muitos de nós. Mulheres que entregaram suas vidas para ensinar Direitos Humanos verdadeiramente como uma consagração como uma das pessoas que mais amo nessa vida.Todas essas mulheres “desabaram” sobre mim, naquele momento e eu chorei. Chorei profundamente.

Coragem

A primeira cena foi aquela na qual uma mãe bem jovem está amamentando um filho na privada porque o marido,também jovem, não a queria exposta junto aos colegas. A professora a encontra e a leva para sala de aula. A mãe volta a amamentar. Uns rapazes fazem uma gracinha e começam uma confusão com o marido da menina. A professora reorganiza a sala e fala que não há nada mais sagrado que uma mãe amamentar um filho e ela tem o direito de fazer isso no lugar que quiser. Eles olham fixamente para a professora. De repente, uma das meninas sobe em cima em cima da cadeira, levanta a blusa e diz: “se o que querem ver é peito, olhem!”. Em seguida, uma por uma das colegas fazem o mesmo gesto. A professora sobe na cadeira e se derrama em lágrimas. Eu acompanho. Que coisa mais linda de se ver: solidariedade, respeito com o corpo da mulher, luz da inocência da vida que quer apenas se alimentar do leite materno e a consciência de uma professora. Se tivesse como, colocaria num quadro aquela cena e pendurava na parede somente para ter que explicar o que aconteceu para todo mundo que me perguntasse.

Solidariedade

A outra cena mostrou uma senhora negra e idosa que mentia para o marido que ia para igreja e, ao invés disso, ia estudar. O fulano descobre, faz um escândalo, briga na escola e obriga a senhora a voltar para casa sob a ameaça: ou a escola ou ele. Uma professora dela é jovem e é representada por Thalita Carauta, aquela linda atriz que se tornou conhecida do grande público por representar a Janete nos quadros cômicos onde aparecia a personagem Valéria Vasquez, criadora do bordão “hoje eu tô bandida”. Aqui é uma mulher densa, forte, decidida. Essa professora diz àquela senhora que pode contar com a ajuda dela e, inclusive, morar na casa dela se decidisse continuar a estudar. A senhora, inicialmente, agradece e vai com o marido, depois, toma coragem e diz: “dediquei minha vida inteira para cuidar de você e dos nossos filhos. Agora, estou cuidando de mim! Se você me ama, vai aceitar eu estudar”. Em seguida, volta e abraça o corajosa professora. A professora chorou. Eu Também.

Chorar

Andava precisando daquilo. Choro sempre que me deparo com a impotência. Quando vejo que algo deve ser feito, mas as forças são precárias. Choro quando vejo qualquer cena de pobreza, pois a pobreza avilta a nossa condição humana. Não nascemos para viver jogados, deprezados, esquecidos. Depois que choro, eu me recomponho. Parece que “limpa” alguma coisa dentro de mim. Jung deve explicar isso melhor que o Freud. O mundo anda muito cruel. Vivam as mulheres! Vivam as professoras!  

Brasília, 5.11.2019

Rafael Vieira