LI, VI, OUVI, ESCREVI

SOMOS TEMPO

Texto curto e indispensável para quem quer refletir sobre o que está acontecendo com a humanidade em tempos de pandemia.

O jornalista, escritor e professor universitário italiano Gerolamo Fazzini, publicou um ebook e a Editora Emi está distribuindo para download gratuito um texto indispensável: “Siamo Tempo (l!abbiamo scordato?)”. Digo indispensável porque não é um tratado, mas uma coleta de pensamentos absolutamente necessária para se refletir sobre esses tempos de pandemia.  O autor faz uma costura muito interessante colando insights muito interessantes sobre o que o coronavírus aprontou com a humanidade. Ele faz uma leitura a partir da “esquecida” realidade de que somos, verdadeiramente, tempo. Vivíamos aceleradamente antes da Covid-19 e fomos obrigados a parar. Essa parada pode ser rica de aprendizagem.

O contraditório também é lembrado no texto que é muito curto, de 40 páginas apenas. O autor cita o escritor israelense David Grossman: “depois da peste, tornaremos a ser humanos” e o filósofo sul-coreano Byung Chul Han que disse: “Nenhum vírus tem condições para fazer uma revolução”. Eu já ouvi muita gente que raciocina nessa mesma linha. O nosso Mario Sergio Cortella, na Folha de São Paulo, outro dia, perguntado se sairemos transformados dessa pandemia, respondeu: “Não creio nisso. Não acho que a humanidade irá se converter à solidariedade. Este tipo de perspectiva é muito mais marcada por um desejo de que isso tenha seu lugar no mundo. Também não acho que ficaremos do mesmo modo, que olharemos as coisas da mesma forma”.

Fazzini, segue um caminho parecido com essa intuição final de Cortela. Em duas partes, o texto segue sob a inscrição de que não é o tempo que é ouro, mas ouro é o tempo, dado o seu valor e sua inexorável importância. Somos Tempo. Eis algumas afirmações colhidas no ebook: “Estamos diante de algo maior que merece a nossa atenção e o nosso respeito. Muito dessa crise tem a ver com o tempo, com a nossa maneira de organizar, de torcer, de sermos atingidos pelo tempo. De repente a normalidade é a coisa mais sagrada temos. Agora é a hora da anomalia, precisamos aprender a viver nela, encontrar razões para recebê-la que não seja somente o medo de morrer”, diz Paolo Giordano, no livro “Il contagio”; “A epidemia nos obriga a nos confrontar, assim como com a solidão, com limites e com a mortalidade. A situação atual nos faz entender que a vida é uma sobrevivência contínua, porque há limites, obrigações, fragilidade, dimensão que estava muito presente nas religiões e que o humanismo contemporâneo tende a apagar. Assim como tendemos a expulsar de nós a questão da mortalidade, o maior limite, que também faz parte da natureza e da vida”, diz a psicanalista Julia Kristeva.

A leitura desse texto é uma experiência incrível. Eu fui conquistado pela citação de abertura. Um brasileiro, modernista, autor de “Macunaíma”, Mário de Andrade, foi colocado por Fazzini no início do texto, logo abaixo da dedicatória aos filhos, com sua lapidar constatação: “Temos duas vidas e a segunda começa quando você percebe que só tem uma”.

Rafael Vieira, 14.06.2020