LI, VI, OUVI, ESCREVI

TODAS AS MULHERES DO PAPA

A edição desta quinta-feira, 26 de setembro, da revista “Style Magazine” publicada todas as semanas pelo jornal “Corriere della Sera” traz uma matéria muito interessante com uma jovem espanhola que é a primeira mulher, na História, a ocupar um posto de comando no jornal do Papa. A tradução é do blogueiro. Leia a matéria:

Marta Lago

Paulo Valentino

Style Magazine, Corriere della Sera, 26 de setembro de 2013

Ela é a primeira mulher leiga a comandar a versão mais lida do jornal oficioso do Vaticano: ”L’Osservatore Romano” (em língua espanhola). “Temos enorme autonomia. E estamos muito atentos diante das atualidades. Falamos de economia, bioética, condição feminina”. A maior emoção? “A ternura do Papa Bergoglio”.

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“Mulheres leigas no coração da Igreja. Tratamos da fraternidade de Francisco”.

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No dia 9 de agosto passado, surpreendendo como é do seu estilo e da sua índole, Papa Francisco, apareceu um pouco depois das nove da manhã no pequeno distrito industrial da Cidade do Vaticano. Ele queria encontrar e saudar os “seus” operários: eletricistas, carpinteiros, encanadores, ferreiros, pessoas que trabalham nos armazéns. Naquela zona está também a sede do jornal do “L’Osservatore Romano”. Logo que foi dada a notícia, os jornalistas saíram para a rua. Quando ela estava bem perto dele, tomada por grande entusiasmo, Marta Lago não se conteve: “Santo Padre, acabamos de fechar a edição espanhola e está belíssima”. O Papa sorriu e pergunto: “Mas você está falando a verdade?”.

Madrilenha, 43 anos, formada em Direito pela Universidade Complutense, com doutorado em Jornalismo, Lago é a primeira mulher e a primeira pessoa leiga a comandar a versão mais lida do órgão oficioso da Santa Sé. São 250 mil cópias difusas entre Espanha e América Latina. Ela vive em Roma desde 2006, quando chegou como correspondente da Rádio da Conferência Episcopal Espanhola. O italiano, ela havia aprendido para se comunicar com os sobrinhos: “minha irmã é casada, há 16 anos, com um romano”. Logo que chegou, logo começou a colaborar com o “L’Oservatore Romano” no período em que Papa Bento XVI havia dado um impulso para que o jornal tivesse mais assinaturas femininas. Depois, tudo correu com velocidade: foi admitida em 2009, para a edição espanhola, tronou-se vice-responsável um ano depois e diretora desde novembro de 2012. Antes, o responsável sempre foi um sacerdote.

Marta Lago chega à Redação, todas as manhãs, às 7 horas e que hora vai embora?

Depende.

É casada?

Não, mas poderei me casar, sou uma leiga.

Perguntei se era casada para entender até que hora você trabalha no jornal…

(Ela dá uma gargalhada). Você tem razão. Saio, em geral, as 19 horas. Talvez eu devesse ter uma família, para ter uma desculpa de ir para casa mais cedo.

Sua nomeação foi uma evolução ou uma revolução?

Decididamente, uma evolução. O número de mulheres que trabalham nos instrumentos de comunicação do Vaticano cresce, continuamente, há muito tempo. Porém, não falo tanto de uma evolução ao feminino, mas de uma evolução que valoriza o papel dos leigos. São profissionais que são valorizados pela capacidade deles, prescindindo do gênero. Claro que as mulheres trazem uma especial sensibilidade, fato que tem merecido grande atenção nos últimos pontificado, desde Paulo VI.

Você está nesse cargo há quase um ano. O que muda? O que mudou?

Tornamos o semanal mais dinâmico, enriquecendo a parte gráfica, introduzindo novos artigos, procurando uma forma mais eficaz para comunicar. As notícias mais importantes são dadas também de um modo mais interessante nos títulos, nos aprofundamentos de aspectos específicos, no uso das tabelas. O nosso desafio é buscar o dinamismo, mostrar a vida da Igreja, e, sobretudo, comunicar bem aquilo que quer o Santo Padre. A palavra certa para um título e o ângulo mais penetrante para uma foto são importantes. Devemos sempre procurar um equilíbrio harmonioso entre a palavra e a imagem. Posso dizer que para fazer isso teme estado fácil tanto com Bento XVI como com Papa Francisco.

Quais são os temas novos que você trouxe para o jornal?

Junto do trabalho tradicional de documentação e de crônica da Santa Sé, estamos agora muito atentos ao debate atual da economia, da bioética, da psicologia; a condição feminina, a família, a crise econômica e a solidariedade. Publicamos comentários e entrevistas. Conseguimos enriquecer o jornal, valorizar a sua função de ponte da missão universal da Igreja. Por exemplo: recentemente, o Papa enviou uma mensagem aos muçulmanos, no final do Ramadã. Eu publiquei além do espanhol, também em árabe para que pudesse ser lida por muitos árabes que vivem na Espanha.

Qual é a margem de autonomia que você tem? Como você resolve a tensão entre ser leiga e profissional e o fato de comandar um semanário da Santa Sé em espanhol?

Bento XVI falava da nacionalidade da fé. Os discursos racionais podem sempre ser publicados. A fé está sempre aberta e atenta na escuta desses discursos. A autonomia é muito grande. Todos os temas que são do interesse do homem, são do interesse da Igreja e nós assumimos esse princípio. Somos livres também na busca de nomes para escrever artigos. Nunca recebi recusa a uma proposta que eu tenha feito.  Me movo, obviamente, com a prudência de quem sabe que esta é considerada a voz oficial da Igreja. Isto vale também para o rigor informativo, diante do qual jamais poderemos descuidar. Nós procuramos construir um produto rico, favorável ao diálogo entre a fé e a razão, aberto a qualquer leitor, seja ele católico ou não. Procuramos fazer informação de modo aberto, dialogante e – para usar uma expressão muito bonita do Papa Francisco – fraterno, isto é, um modo capaz de não excluir ninguém.

Para da um exemplo: como vocês cobriram a visita a Lampedusa, quando o Papa tocou um tema controverso como a imigração?

Ocorreu o evento, os gestos, as palavras pronunciadas. Depois, também havia o conteúdo: a importância da dignidade humana, o dever do acolhimento, a fraternidade, a justiça. Trouxemos ao leitor os abraços e o modo como o Papa foi acolhido, o desejo que ele tinha de ir àquele lugar e o seu discurso. E destacamos o fato que o pontífice acendeu uma luz sobre um flagelo, sobre uma tragédia para a qual, muitas vezes, as pessoas viram as costas. Havia também a crônica: o que é e o que acontece em Lampedusa, como são tratados os imigrantes, como reagem as pessoas, como são os outros lugares e outros países onde esses imigrantes desembarcam.

Dois Papas, dois estilos profundamente diversos. Qual é o mais complicado para a cobertura: Bento XVI ou Francisco?

O primeiro fazia discursos teológicos multo altos e profundos, difíceis de traduzir com precisão e dificilíssimos para sintetizar na primeira página do jornal. Papa Francisco é muito mais conciso, é como se dissesse as coisas em pequenas doses. Para ele, a palavra está mais ligada aos gestos e isso facilita a escolha das imagens.

E como vocês mostram as escolhas do Papa Francisco como aquela de morar na Casa Santa Marta, um hotel feito para hospedar os cardeais, de não usar sapatos vermelhos e de telefonar para as pessoas?

Temos tido muita sorte, porque é ele mesmo que conta a razão dessas escolhas: nas homilias na Santa Marta, nos aviões, nas visitas espontâneas. Para ele, isso tudo é natural. Por isso, publicamos os textos integrais de suas declarações. Mesmo quando nos deparamos com temas difíceis, quando precisamos ser mais cuidadosos, como aqueles temas relacionados ao IOR, por exemplo, não devemos renunciar a esta simplicidade profunda que é a grande lição e exemplo do Papa Francisco. A sua naturalidade nos gestos desarma, suscita ternura.

Qual foi a experiência extraordinária deste ano?

A renúncia de Bento XVI foi um momento e um gesto extraordinário que muito nos comoveu. E depois, encontrar o Papa Francisco na Santa Marta. Participar da missa com ele. Emocionante.

TODAS AS MULHERES DO PAPA

CERCA DE 20 POR CENTO DOS LUGARES DE COMANDO, HOJE NO VATICANO, SÃO OCUPADOS POR RELIGIOSAS, MAS FOI O PAPA FRANCISCO QUE LEVOU UMA LEIGA PARA A COMISSÃO PONTIFICIA DO INSTITUTO PARA A OBRA DA RELIGIÃO. MARY ANN GLENDOM É O ÚNICO MEMBRO FEMININO DESSA COMISSÃO (ELA HAVIA SIDO EMBAIXADORA DOS ESTADOS UNIDOS), QUE TEM POR OBJETIVO DE RECOLHER E TRANSMITIR AO PONTÍFICE INFORMAÇÕES SOBRE O BANCO. SÃO MULHERES TAMBÉM A SUBSECRETARIA GERAL DA CONGREGAÇÃO DOS RELIGIOSOS, IR. NICOLETTA VITTORIA SPEZZATI, A SUBSECRETÁRIA DO PONTIFÍCIO CONSELHO DA JUSTIÇA E PAZ, A LEIGA FLAMINIA GIOVANELLI. PARA O QUE SE REFERE AOS BENS MATERIAIS DA IGREJA, FOI CONFIADA A UMA MULHER, CHEFE DE GABINETE DA FÁBRICA DE SÃO PEDRO,A HISTORIADORA DA ARTE, MARIA CRISTINA CARLO-STELLA QUE JÁ ERA REPRESENTANTE DA COMISSÃO PONTIFICIA PARA OS BENS CULTURAIS.

Fotos da Revista

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Rafael Vieira, 26.9.2013