LI, VI, OUVI, ESCREVI

TOUR ITALIANA DE CAETANO VELOSO

Caetano Veloso vai girar a Itália fazendo shows em cinco cidades no final do mês que vem até a metade de maio. A última edição de “Il Venerdi”, revista semanal do jornal La Repubblica, traz entrevista interessante do baiano que eu traduzo para você.

Meu Brasil, democracia teimosa: entre a saudade e a indignação

Ele volta à Itália depois de quatro anos no momento em que o Brasil, onde se realizará a Copa e eleições presidenciais, vê que está de volta às praças, os protestos e a polícia reage com uma violência que faz recordar a ditadura militar, a qual daqui a três dias, no 31 de março, se completará meio século que teve inicio.

Alberto Riva

Il Venerdi, La Repubblica, 28.3.2014

Setenta e duas primaveras no próximo 7 de agosto, Caetano Veloso estará na Itália para cinco etapas de seu tour mundial Abraçaço começando no dia 30 de abril em Turim, depois, Pádua em 2 de maio, no dia 5 em Milão, 7 em Roma, 9 em Bari e fecha em Sassari no dia 13. Abraçaço, substantivo intraduzível que quer dizer muito mais do que um grande abraço é o terceiro disco que o brasileiro fa Bahia faz com sua banda Cê que registra como um sismógrafo implacável os anos recentes desse artista que tem carreira de mais de cinquenta anos, numa trajetória que coincide com a época mais revolucionária, intensa, alegre e dolorosa do seu grande País dilacerado entre milagre e desilusão.

Caetano: você se recorda onde estava naquela noite de 1 de abril de 1964, quando os militares tomaram o poder?

Eu estava na Universidade, em Salvador, junto com outros estudantes, procurando entender como aplicar a pedagogia de Paulo Freire, um filósofo da esquerda católica que eu admirava muito. Chegaram alguns estudantes dizendo que era para que voltássemos para casa, pois os militares tinham tomado o poder e prendido muita gente. Um dia depois, os carros blindados estavam nas ruas e alguns dos meu professores foram interrogados.

Em Abraçaço, você faz homenagem a Carlos Marighella, um militante que foi morto pelos militares. Porque escolheu justamente ele?

Ele foi um herói romântico da esquerda ao qual Jorge Amado quis fazer um monumento no centro de Salvador. Depois de 1968, uma amiga me propôs de colaborar logisticamente com essa luta e eu acetei, mas fui preso antes de poder fazer alguma coisa e não foi por este motivo. Recordo que quando Maighella morreu, eu e Gilberto Gil estávamos no exílio em Londres e enviei um artigo para o Brasil escrevendo: “Gil e eu estamos mortos. Ele é o mais vivo de nós”. A minha admiração por Marighella não significa que eu tenha alguma vez considerado a luta armada correta e eficaz e nem sei se teria condições de participar dela. Talvez seja por causa do meu temperamento contrário à violência. E depois, entendi que a luta armada não contava com a empatia do povo brasileiro.

E, no entanto, este ano, seus compatriotas voltaram às ruas. Seria somente por causa da Copa ou há alguma coisa a mais?

A Copa é uma das razões, mas há pressões profundas. Acordos pouco claros entre governos e construtoras, estádios imensos que serão completamente inúteis depois das partidas do mundial. Quem protesta pede o “padrão Fifa” também para as escolas e hospitais. Nas ruas, há gente de Esquerda, mas também quem aprova as críticas da Direita sobre  o partido do Lula, o PT. Nossos jovens sabem do Occupy Wall Street, da Praça Tahrir e dos Indignados de Madri. É o zeitgeist.

Os oito anos de Lula e agora Dilma Rousseff mudaram o Brasil ou foi uma ilusão bem produzida?

Não, não foi uma ilusão, mas a mudança começou com o governo de Fernando Henrique Cardoso. Não tínhamos tido nunca um período democrático tão longo e positivo no seu conjunto. Mas existem forças retrógradas na sociedade brasileira incomodadas com essa teimosia democrática. Há que se dizer que Dilma não possui a sabedoria política de Lula e a economia mundial não é favorável.

Vamos à música: este é o terceiro álbum que tem seu filho como produtor. Como você se sente trabalhando com ele?

Moreno é fantástico, no estúdio é calmo e confiável. Este três discos devem muito à sua lucidez. Creio que com abraçaço se feche uma trilogia, mas com o grupo, gostaria de fazer alguma coisa diferente.

E aquela ideia de um disco com canções italianas, existe sempre?

Sim, desde que Stefano Bollani me propôs. De vez em quando, se fala disso. Veremos.

A partir do  descobrimos um Caetano mais reflexivo, quase íntimo, frágil…

Aquele devia ser um disco fantasma. Eu havia pensado de assiná-lo com um pseudônimo e com minha voz modificada eletronicamente. Há uma canção que diz “vou passar ao seu lado e você não vai saber que sou eu”. Depois, aconteceu que bem naquele momento acabou meu casamento e vieram canções  que eu não tinha imaginado, pessoais, melancólicas que eu decidi cantar com meu nome e a minha voz de baiano post Bossa Nova, como, de outro lado, todas as minhas canções depois de 1967, que estão mais na direção do rock.

Que relação existe com o tempo que passa?

Sinto saudades daquela alegria simples e da juventude física. Mas não atribuirei toda a negatividade à velhice. Um pouco também por ter vivido os piores momentos aos 20 anos e a felicidade aos 75. O tempo passa e há uma certa alegria nisso.

No ano passado, você perdeu sua mãe, dona Canô. Como esse fato atingiu você?

Minha mãe tinha 105 anos e morreu no dia de Natal. Era a nossa razão de festa e de orgulho. Quando os pais não estão mais presentes, de repente, a gente se sente adulto para resolver questões que ficavam em suspenso.

Na Itália você vai cantar suas célebres canções do passado?

Quem vier aos shows vem para ver como estou agora e para escutar as músicas que faço hoje, que eu cante clássicos do meu repertório ou daquele de Michael Jackson.

Rafael Vieira, 31.3.2014