LI, VI, OUVI, ESCREVI

UMA VISÃO ITALIANA DO BRASIL

Um repórter da revista “Il Venerdi” foi ao Rio de Janeiro e escreveu uma matéria interessante sobre os contrastes da Cidade Maravilhosa. O texto foi publicado esta semana e vale a pena conferir. É extenso e deu trabalho para traduzir, sem Google. Eu o fiz por você! Leia.

As duas faces do Rio

No alto, nas favelas, vivem milhões de pobres. Embaixo, na cidade, os novos ricos se movem com helicópteros em cima de um tráfico caótico. Na espera da Copa e das Olimpíadas, o Brasil tenta a pacificação entre mundos distintíssimos.

Matias Marini

Il Venerdi, La Repubblica, 1.11.2012

Rio de Janeiro. Paradoxo da geografia ou capricho da natureza, na capital carioca, os pobres vivem no alto, sobre as montanhas. Milhares de favelas onde se amontoam dois milhões de pessoas. As favelas não estão na periferia, mas centro do Rio de Janeiro. Do alto, os indigentes gozam de uma visão panorâmica empolgante da cidade que vai acolher a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016).

Embaixo, no plano que chega à praia, ao contrário, passeiam os brasileiros bem de vida, despreocupados. Eles se sentem como parte do progresso que promete a bandeira do país. No meio daquela multidão, aparecem alguns dos 40 milhões de pobres que na última década começaram a chegar ao status de classe média baixa, a esmagadora classe “C”, dona dos 40% do PIB.

Embaixo também estão aqueles que podem, para evitar a intensidade do tráfico, alugar um helicóptero para atravessar a cidade fazendo escala nos terraços dos arranha-céus. Voos que  evitam o transporte público caro e superlotado. Das hélices, as crianças que jogam nos tetos de zinco parecem formigas e são, talvez, alguns daqueles 5 mil meninos do Rio que ainda trabalham para o narcotráfico ou para as milícias, empunhando armas de origem israelense, russa ou americana.

A paixão pelo futebol une quem está no alto com quem está embaixo. Romário é a síntese: nascido em uma favela, passou de astro da bola a deputado. Quem está em cima e embaixo estão separados em todo o resto: renda, perspectiva de mobilidade social, educação, saúde. Uma cidade partida. Apesar das ótimas ofensivas de amortizações sociais lançadas dez anos atrás pelo ex presidente Lula da Silva, o IBGE, o Istat brasileiro, diz que a renda da classe abastada supera 30 vezes o salario mínimo.

No vídeo em 3D que o governo brasileiro mostrou aos convidados do Comitê Olímpico nem sinais daquelas grandes favelas que estão no alto. No lugar das montanhas atapetadas de barrocos, aparece um Rio cheio de bucólicas colinas. Eles excluíram as favelas. Depois de três décadas de narcotráfico e de ausência do Estado, a vontade política brasileira decretou que o pesadelo das favelas vai chegar ao fim. Começa a contagem regressiva para os eventos esportivos internacionais.

“Pacificar” é o verbo que está na moda do léxico político carioca. “Hoje, entramos nas favelas com uma proposta de paz, para recuperrá-la, sem derramar sangue”, promete José Mariano Beltrame, o Secretário de Segurança Pública. Ele é o artífice da pacificação;  a pessoa que teve a determinação de acabar com os métodos de guerra da velha e viciada polícia. Dizem que seus homens são incorruptíveis.

Restituir o território às pessoas e garantir a livre circulação delas. É esse o horizonte oficial que Beltrame concretiza colocando no interior das favelas os mirantes das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).”Se o Rio ainda é uma cidade dividida é também verdade que esta divisão nunca foi tão combatida como nos últimos dez anos”, assegura à Venerdi, Anselmo Pessoa Neto, pró-reitor da Universidade Federal de Goiás que acrescenta: “o programa de pacificação das favelas é, sem dúvida, um sucesso”.

Evidências? As novas estruturas. Teleféricos como aqueles napolitanos, estão instalados no Rio. É um canal concreto de comunicação entre aquele alto e aquele baixo tão diferentes. Há também guaritas em cima e embaixo que fazem a vigilância o mar de barracos. Do centro cheio de progresso agora se pode subir ao “Alemão”, grande favela e ex feudo dos narcotraficantes. Igualmente acessível está a Providência, o distrito mais antigo do Rio de Janeiro. Assim também pode-se chegar à Rocinha, uma das maiores favelas, com 120 mil habitantes.

Durante anos, a Rocinha foi o maior mercado de drogas da região submetido aos narcotraficantes. De bermudas e com câmeras fotográficas nas mãos, hoje esquadrões de turistas percorrem as estreitas ruas da região como se brincassem de esconde-esconde ou fossem aventureiros da redescoberta de uma exótica cidade conquistada.

Se no passado cada intervenção terminava em carnificina, hoje os policiais procuram fazem realizar ações que conquistem a confiança: aconselhar adolescentes, assistir senhoras no parto ou, simplesmente, jogar bola com os meninos de rua. Esses são alguns traços da nova polícia depois de trabalhar sozinha por muitos anos rejeitada pela população “invadida”. Os agentes trocam a confiança, porém, por informação; dados ou delações por parte da população que possam esmagar o silêncio no interior das comunidades recuperadas.

A confiança, porém, não basta. A favela Santa Marta está aos pés de Botafogo, um dos bairros mais chiques do Rio. Entre as primeiras comunidades a ser pacificada, o governo a chama de “favela modelo”. Os moradores lamentam, no entanto, das imposições que devem suportar por causa dessa pacificação: “modelo de que?” se lê numa faixa fixada num barraco. “Sem segurança, não há saúde e nem educação”, replica Beltrame.

De qualquer modo, há uma paz sob escolta com homens armados no meio das crianças e patrulhamento constante. “Querem nos dirigir, confundem pacificação com tutela”, diz um vizinho da favela Morro dos Prazeres: “esqueceram que somos cidadãos livres e independentes”.

A ingerência da polícia nos negócios privados pode chegar ao ponto de proibir festas vespertinas. “A vida nas favelas sempre foi vivida nas ruas de lama, que escorrem o negócio e vida social, mas agora, com os policiais, todos vivem uma espécie de prisão domiciliar” conta, de São Paulo, Andrei Serbin Pont, estudioso da Parceria Global para prevenção de conflito armado.

“Para os grandes chefes, a pacificação é um sucesso. Todavia, quando esse processo passa a durar, vai depender do desenvolvimento social: se vai prevalecer a política pública da firmeza ou vice versa”, adverte Serbin e acrescenta:  “um policial em cada canto é muito caro e nem sempre pode existir. Não queremos viver em um estado policial. A pacificação será sustentável não pela via das armas, mas somente se melhorarem as condições socioeconômicas do povo”.

O fato é que com a pacificação, o Morro dos Prazeres se tornou um agitado centro cultural com programas para estimular a formação de jovens talentos que preenchem o vazio social deixado pelo narcotráfico. Os habitantes do Morro querem convencer os empresários para que apostem em projetos de autogestão para o resgate social.  Querem para isso, seduzir usando o potencial econômico da favela recuperada.

Potencial que já se tornou mel para os negociantes gulosos na nova cara dos morros. Os eventos esportivos estão explodindo na febre da construção civil, claro, não despojada da especulação. Entre janeiro de 2008 – quando começou a pacificação – a julho de 2012, o Rio conheceu um aumento de preços na ordem de 308% para as vendas e de 108% para alugueis. Só no ano passado, os imóveis alugados no raio de 500 metros de uma UPP subiram 28% a mais do que os outros imóveis. O alto custo de vida que agora atinge a cidade toda está empurrando os inquilinos de classe média a se mudarem para áreas menos favorecidas onde jamais pensaram em colocar os pés.

Vidigal, ex bairro desfavorecido, é agora o último grito da moda; ocupado por artista do mundo inteiro, com casas super vigiadas, pousadas esnobes e restaurantes modernos. Não passou nem um ano depois de sua pacificação, a antiga favela, amaldiçoada pelos ricos, acolhe os “filhos de papai” que chegam para agitar.

Controlar o território significa também garantir o capital. O Estado quer fornecer uma base jurídica a esse novo mercado. Pacificar a todo custo para agilizar a chegada de investidores, entre eles, europeus. Municiar os habitantes com títulos de propriedade para que, agora que estão valorizadas, possam vender e assim alimentar o mercado. Por força dessas medidas, começa o boom da bolha imobiliária carioca.

Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, investiu significativas fortunas para equipar as UPPs. Proprietário de grandes grupos de imobiliárias, o magnata está muito interessado em financiar as políticas de pacificação. Chegará, indiretamente, para ele, a renda da praça limpa.

Pacificação e valorização estão provocando também um inesperado êxodo econômico. De mãos dadas com a força da ordem, desembarcam as instituições do Estado que cortam a luz e o fornecimento de água a quem não paga. A Cidade de Deus, favela que se tornou popular pelo filme homônimo, é um desses casos em que os benefícios sociais expulsam os habitantes.

Ignorando a existência do Estado e desprovidos dos serviços sanitários – que são caros no Brasil – os habitantes não foram acostumados a pagar para iluminar a própria casa ou para beber água potável. As novas despesas da civilidade prometida atacam os bolsos magros dos habitantes que migram para zonas não alcançadas pela pacificação pré-Copa. Partem para Vigário Geral ou para a Maré, complexo de 16 favelas no norte do Rio onde os comerciantes pagam a renda a dois bandos de narcotraficantes que dividem a área. Ou ainda vão para a Baixada Fluminense, onde reinam os grupos paramilitares. As “milícias”, em português, são grupos de um estado paralelo financiados pelos comerciantes e empresários que buscam proteção diante dos narcotraficantes.

No entanto, da montanha do Corcovado, a 700 metros de altitude acima do nível do mar, a estátua do Cristo Redentor olha para as mutações da Cidade Maravilhosa. Aqueles seus braços abertos, quase crucificados, parecem querer conciliar os dois mundos contrapostos, as vezes em guerra. “Como ensina Italo Calvino no seu livro As cidades invisíveis” é a metáfora de Pessoa Neto: “Cada orbi tem a sua dupla face. E o Rio de Janeiro, como o resto do Brasil, nasceu sob o signo do contraste social”.

Somente quando se apagar a chama olímpica, vai ser possível ver a foto definitiva do Rio.

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Rafael Vieira, 2.11.2013