LI, VI, OUVI, ESCREVI

WEBSÉRIE “POSITIVOS”

ESSES MOÇOS… POBRES MOÇOS…

A música do Lupicínio Rodrigues corta como se fosse faca no final de certas cenas da webserie “Positivos”  que parece estar causando grande repercussão nas redes sociais, especialmente entre jovens e pessoas sensíveis ao misterioso mundo de quem vive e convive com o HIV. O vírus que provoca a AIDS é o fio condutor de uma porção de histórias que se cruzam e são vividas por atores que colocam a alma na atuação. A produção é reconhecidamente precária, mas a qualidade do roteiro e a paixão dos intérpretes nem deixam perceber possíveis falhas no som, na luz, na continuidade, no desequilíbrio da idade dos personagens com a dos atores ou nos contra campos. Cheguei a assistir a quase todos os episódios das duas temporadas iniciadas no ano passado e fiquei verdadeiramente impressionado com a coragem que tiveram para tratar um tema delicado, de modo delicado e com a possibilidade sempre presente de que peso da mão na criação de situações clichês pudesse resvalar na reprodução do preconceito quando se quer combatê-lo.

A AIDS, por exemplo, não obstante ter sido considerada uma síndrome que dilacerou o chamado universo gay, é uma pandemia global presente na vida de milhares de heterossexuais homens e mulheres. Em 2010, antes da Copa do Mundo na África do Sul, eu visitei uma clínica pediátrica na cidade de Rustemburg, algumas horas de carro de Johanesburg. Lá estava um meu confrade sul africano que luta, há muitos anos, contra a contaminação de crianças naquele país que é hoje, proporcionalmente, o mais flagelado pelo vírus em todo o mundo. Naquela clínica, eu vi crianças que, infelizmente, apenas aguardavam a morte em um ambiente limpo e decente, tal era o grau de avanço da doença, o desamparo social e o completo descaso da Saúde Pública. Um país que, ao mesmo tempo, fazia festa para o futebol e assistia, impassível, a morte daquelas crianças que eram vítimas fáceis de doenças oportunistas e que não foram acompanhadas com coquetéis antivirais eficientes. Aquele meu confrade dizia que a luta de Mandela, de Desmond Tutu e de todos que com eles combateram por um uma Raimbow Nation não tinha incluído sérias campanhas de prevenção e a Igreja Católica, sempre criticada por posturas morais consideradas obscurantistas em relação ao tema, era a instituição que mais cuidava de portadores do HIV na África subsaariana.

O resultado final da série, no entanto, é excepcional, pois ela trata de valores que transcendem qualquer universo temático pois aborda medo, desespero, coragem, covardia, solidariedade. Os personagens são humanos, contraditórios, alegres, tristes, fortes e frágeis. A repetição de cenas de intimidade sexual pode, de algum modo, afastar públicos mais conservadores ou até mesmo impedir que muitas pessoas não percebam a genialidade de quem criou e a força espetacular do grupo que executa a ideia. A presença de um movimento concreto – fora da tela – que sugere ao público que adote um soropositivo oferecendo poucos minutos do próprio tempo para favorecer a vida de quem vive sob a pressão constante de que a vida se esvai é um elemento que, para mim, cobre qualquer obstáculo compreensível. Enquanto ouvia depoimentos realísticos dos personagens que, ao contrair o vírus, descobrem que a vida pode estar acabando, eu perguntava aos meus botões: “mas a vida não está acabando para todo mundo?”.

Até agora, além do que vi publicado a respeito da produção pelos próprios realizadores, não encontrei nenhum comentário mais profundo e com reportagens mais apuradas, mas o que vi e li já foi suficiente para meditar, pensar e rezar.  Outro dia, fiz uma peregrinação pelas sete igrejas antigas aqui de Roma e no altar de uma delas, a Basílica de São Sebastião, entre as intenções que confiei ao Senhor, eu coloquei o sucesso desse trabalho, a vida e a felicidade dos atores e de suas famílias e, principalmente, a vida daquelas milhares de pessoas que abrem o resultado de um exame de sangue  e encontram a emblemática revelação de que é “positivo”. A webserie, por fim, tem um elenco de grandes talentos que merecem crescer, ainda mais, na carreira que escolheram e realizar trabalhos ainda mais bonitos sobre a dramática e engraçada trajetória da humanidade. A trilha sonora que traz uma bela voz interpretando o Lupicínio que quase chora ao recordar que “esses moços, pobres moços.. ah se soubessem o que eu sei.. não amavam, não passavam aquilo que eu já passei” também tem músicas maravilhosas que não saem da cabeça da gente. Eu gostei imensamente de duas: a canção de Pedro Quevedo, que também atua, chamada “Uma vez” e a outra é de L.A.B, que resume momentos de grande impacto na vida das pessoas, a interessante “Vai brincar lá fora”.

Rafael Vieira, 2.4.2014

Foto: Divulgação (atores: Hugo Carvalho e Donni Rodrigues)